Anna H.
19 March 2013 @ 02:11 pm
Epílogo i  

O timer do forno disparou, e anotei mentalmente para levantar-me no próximo intervalo – um homem estava tentando comer cem baratas vivas em três minutos. Antecipei o momento de ir buscar o jantar quando, na 39ª, ele vomitou. Descruzei as pernas e fui à cozinha, retirei a pizza semicarbonizada do forno, joguei uma fatia num prato de sopa que achei no armário e retornei à televisão. Deixei-me cair no sofá e coloquei os pés sobre a pilha de jornais não lidos que tinha sobre a mesa de centro. Uma mulher estava numa banheira, coberta de baratas até o nariz. Estavam contando o tempo?

pizza e cerveja )

 
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Anna H.
19 March 2013 @ 02:18 pm
Epílogo ii  

Acordei sob o soar da campainha. Xinguei e tentei ignorar. Quem quer que fosse, poderia voltar outra hora ou nunca mais, de preferência. Algo gemeu ao meu lado e lembrei que Mansfield aparecera durante a madrugada, cheirando a vodka e pedindo que o chamasse de vagabunda. O maldito da campainha desistiu e pôs-se a bater insistentemente à porta. Mansfield desvencilhou-se das cobertas, gritou que já o atenderia, tropeçou nas próprias pernas e rolou da cama para o chão, onde acomodou-se e voltou a dormir.

entreaberto )

 
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Anna H.
19 March 2013 @ 02:21 pm
Epílogo iii  

Parecia que Mansfield passara a viver em meu apartamento. Lembro ouvi-lo relatar algo sobre embriaguez e ter confundido minha casa com a dos pais, o que torna possível imaginar o que se sucedera então. Mas a verdade é que apenas tenho a impressão de que sua presença tornara-se longa e contínua e, por outras vezes, desaparecia por o que poderiam ter sido horas ou meses, embora primeira opção fosse mais provável. Outra verdade é que qualquer noção de tempo que ainda me restava fora estraçalhada com a visita de Knowles. O gosto ruim em minha boca permaneu mesmo depois sua retirada, e nosso encontro me parecia, ao mesmo tempo, tão recente e tão distante que eu não saberia dizer se acontecera há dias ou há poucos minutos.

batatas fritas e resoluções )

 
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Anna H.
19 March 2013 @ 02:25 pm
Epílogo iv  

Ele tinha as mãos repousadas na cama, ao lado do corpo, sobre a manta de retalhos que o cobria até a cintura. Em ambos os braços, bandagens cobriam o local de inserção de vários tubos vermelhos e incolores, ligados a uma única máquina branca e robusta, encostada à parede do quarto. O pijama hospitalar estava entreaberto e deixava seu peito à mostra, muito mais magro do que eu recordava. Dolorosamente magro. A cor de sua pele se aproximava da fábrica verde esbranquiçada que o cobria. Da base de seu pescoço, acoplado a uma placa azulada, saía um tubo incolor que se conectava a um cilindro no qual um diafragma se expandia e contraía. Seus lábios estavam ressecados; suas bochechas, profundas, e seus olhos também – naquela face lívida, eram a única parte escura. E não se abriram em momento algum. Seu cabelo era tão escuro quanto o meu e crescera desordenadamente. Em algumas partes, simplesmente não crescera.

a caixa de pandora )

 
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