radostia: (le gorro)
Anna H. ([personal profile] radostia) wrote2012-01-01 03:23 pm

baby, you're a firework iv

Os lábios separados de Matthew permaneceram mudos, embora parte de sua mente exigisse que algo fosse dito. Sua mão tateou o chão até encontrar a taça da qual bebia e a elevou até os lábios, que, depois de sorverem o champagne, assumiram a forma de seu mais canino sorriso. Os olhos então desviaram-se da cena enquanto despejava mais da bebida na taça e encontrava o olhar do homem ao seu lado. Allan divertia-se, provavelmente mais por pensar nos rostos dos outros dois dali a minutos do que pela situação em si, e a expressão no rosto do McCollough mais velho o divertiu ainda mais.

Allan levantou-se primeiro e cedeu a mão que não segurava a chávena de chá para que Matthew também o fizesse. Este então seguiu à sua frente para impedir que a porta se cerrasse e encostou-se nela de modo a prendê-la contra a parede, os braços cruzados no peito e a taça próxima aos lábios, que com dificuldade abandonavam sua expressão astuciosa para aqui e ali molharem-se no sabor amargo da bebida. Allan não adentrou o corredor, mas permaneceu posto a um ou dois passos dele, com uma mão no bolso da calça, o chá seguro na outra; e um sorriso divertido nos lábios e nos olhos.

Anthony perdera a cabeça. Os beijos de Damián lhe roubavam o ar e os pensamentos, e a presença de Matthew e Allan dissolvera-se no perfume da loção pós-barba do espanhol e evaporara com o calor contido em seus lábios e abraços. As mãos do fotógrafo eram gentis em suas carícias e tentavam sempre trazer o inglês para mais próximo de si, embora quase nenhum espaço restasse entre os dois. Haveria tempo o suficiente para permanecerem desconfortavelmente distantes em dois dias ou três. O calor dentro do McCollough mais novo aos poucos acomodou-se em seu peito, sem, no entanto, perder sua intensidade; e, com isso, os beijos lentamente se abrandaram e, enfim, arremataram-se em alguns instantes silenciosos em que as testas unidas e a partilha do oxigênio não era menos íntima que qualquer outro toque. Olhares breves foram trocados e o espanhol sorriu com o que vira nos olhos do ator, e estalou um último beijo em seu rosto. A ânsia pela proximidade não fora extinta, nem em si, nem no inglês; mas fora suficientemente domada.

“Mas é só isso?”

A voz de Matthew despertou, por fim, Anthony das remanescências de seu estupor. Seu olhar encontrou o do primo, que sorria por trás da taça de champagne, e um frio desagradável nasceu em seu estômago e espalhou-se por seu peito até alcançar-lhe a garganta. As mãos, que antes repousavam uma no braço de Damián e a outra em sua cintura e o mantinham próximo, agora se ocuparam em afastá-lo sutilmente e escorregaram para dentro de seus bolsos, onde puseram-se a amarrotar a fábrica interna destes. O espanhol não o impediu, nem viu qualquer ofensa em suas ações. Também não conseguia impedir um leve sorriso de aparecer em seus lábios.

“Com a cara que fizeste, esperava ao menos um pouco de diversão”, continuou o anfitrião. Anthony engoliu em seco e apressou-se até o alpendre, evitando cruzar o olhar com os de outrem. Ao passar pelo primo, deteve-se um instante, tendo capturado de relance a visão da bebida nas mãos dele. “Isso é champagne?,” indagou em um murmúrio, mas não esperou ser respondido: apoderou-se da taça e tomou dela um sorvo considerável. Seu rosto fechou-se numa careta ao sentir a secura amarga e borbulhante descer por sua garganta. Nunca aprendera a gostar de champagne. Seus pés encontraram o caminho e o levaram para longe do corredor, ajudados pelos tapas de aprovação de Allan em suas costas. “Deveríamos pagar pela continuação, é isso?” ouviu, na voz do último, mas não se dirigia a si, mas ao espanhol.

Damián não ouvia; ou, se ouvia, não se importava. Sua mão destra também encontrou o bolso, mas, diferentemente da de Anthony, não o torturou; a sinistra tocava seus lábios, recobrando-lhe a sensação de ter contra eles os do ator, e o prazer fazia crescer o sorriso que dominava seu rosto. Matthew cedeu-lhe elogios irônicos e Allan perguntou-lhe se deveria esperar por uma continuação em algum momento da noite. Em resposta, selou os lábios com os do primeiro e bateu afetivamente no rosto do segundo. Anthony começava a sacar a rolha de uma garrafa de vinho quando juntou-se a ele, seguido pelos outros dois.

Matthew encontrou uma nova taça para si e serviu-se outra vez de champagne. Allan sentou-se ao lado do gramofone e pôs-se a girar a manivela para dar-lhe corda. Quando a música tornou a soar, seus olhos fecharam-se em deleite. A valsa era lenta, e seus pés urgiam em segui-la, e o homem cederia ao impulso de levantar-se, arrancar Matthew do que estivesse fazendo e forçá-lo a dançar consigo, se não fosse pela pequena birra sustentada pelo anfitrião desde a noite anterior.

“McCollough,” chamou, e quis sorrir ao ver ambos os rostos voltados para si. Seus passos o levaram até onde os outros três homens se haviam reunido e estendeu a mão ao mais novo deles. Este esperou algum gracejo de sua parte, uma tirada cômica, mas nada veio além de um cúmplice sorriso. Damián tomou o cálice das mãos do mais novo e o encorajou a aceitar a proposta.

Dançaram, então, os dois longamente, ora em silêncio, ora em conversas e risos, ambos a tirar proveito dos humores do segundo McCollough. Ao fim da valsa, separaram-se com mesuras exageradas, e Allan retirou-se a fim de fazer-se mais chá, ao passo que o ator voltou a dar corda no tocador de discos e convidou o espanhol para mais uma música. O fotógrafo sorriu e beijou a mão que lhe fora oferecida, mas recusou e insistiu que o jornalista tomasse seu lugar, para curar a tez enfezada.

Matthew cansou-se da valsa em pouco tempo, e Damián apressou-se em substituí-lo. O bailado estendeu-se por vários minutos após o fim da corda, embora pouco de fato valsassem; oscilavam sobre as pernas em pequenos passos, envoltos um nos braços do outro, e trocavam, sem elevarem as vozes, diálogos breves e sutis.

Em algum momento, o transe dos dois foi interrompido pela voz de Matthew, vinda do gramado, meio roubada pela distância e pela vastidão do céu aberto. O inglês os convidava a juntarem-se a ele nas proximidades da fogueira, que Allan em breve acenderia. O espanhol logo se preocupou em procurar o melhor amigo no interior da casa, e Anthony ocupou-se em assistir o primo em tornar mais confortável a larga toalha de mesa estendida sobre a relva, transportando do alpendre para lá algumas almofadas, garrafas de bebidas e travessas com quantidades reduzidas do que havia sido preparado e posto sobre o banco.

Em pouco tempo, as labaredas alaranjadas erguiam-se e dançavam em direção ao céu, com se quisessem lamber e engolir as estrelas que o vestiam, e os quatro homens se haviam reunido, sentados em um semicírculo, para aproveitarem o calor advindo do fogaréu e fugirem do frio noturno que se agravava com o passar aproximar do novo ano. As três silhuetas, recortadas pela claridade, se estendiam compridas até misturarem-se com a escuridão. Entre as conversas baixas e esporádicas, a voz do mais velho, que formava a sombra mais próxima da casa, ergueu-se sobre as demais, sem que em seu tom houvesse sinal do divertimento presente em seus lábios.

“Ouvi dizer que você estava sem camisa.”

A discussão que era mantida entre os dois primos cessou, e Anthony pôde ver o rosto do outro transformar-se e tomar a mesma expressão que tinha à porta de seu quarto. O espanhol, a quem o comentário fora dirigido, não esboçou reação maior que um riso e continuou a vasculhar o prato à sua frente em busca de uma uva que julgasse atraente. “Ouviu errado”, foi o que disse ao achar uma, antes de pô-la entre os dentes.

“A camisa estava aberta, na iminência de ser furiosamente arrancada de seu corpo e arremessada através do quarto como se estivesse em chamas, chamas de pura luxúria –” a voz que se erguera logo em seguida era a de Matthew, acompanhada de gesticulações que ilustravam suas palavras, “pode-se dizer que apenas arredondei o resultado.”

“E que você tinha uma ereção”

Damián precisou cobrir a boca e fechar os olhos para não rir alto. A mão de Anthony que repousava em seu joelho o apertou com força, mas somente por um instante, e o corpo do mais novo recostou-se confortavelmente no do espanhol. “Não havia nenhuma ereção” disse e ergueu a taça que tinha em mãos para indicar o primo ao seu lado direito, “Matthew é que está louco por uma”

“O que há de errado contigo?” O jornalista não parecia ter ouvido ou dar importância ao último comentário do primo, sua descrença dirigia-se inteiramente ao homem de pele mais escura, que mordia os lábios para conter o riso. “Se eu me encontrasse entre Anthony e a cama,” continuou, “com a língua de Anthony em minha garganta e prestes a perder todas as peças de roupa, teria uma ereção epopéica!” O ênfase à ultima palavra foi dado por um dedo erguido no alto, seguido de um olhar sério, que falhou em combater o riso dos mais velhos e a indiferença do mais novo. “Uma ereção mais ilustre que A Odisséia, A Ilíada e A Divina Comédia juntas; mais sólida e imponente que O Colosso de Rhodes; mais poderosa que o cenho franzido de Zeus” aqui ele pausou para umedecer os lábios no champagne, “A ereção das ereções, se quiserem” acrescentou, em um tom mais calmo, quase modesto, ao repousar o cálice na bandeja, “Antes mesmo de poder dizer ‘ereção’.”

O silêncio que o seguiu perdurou pouco, quebrado pelos grilos na grama, pelo vento nas copas das árvores e pelo estalar da madeira que queimava, e foi rompido pela voz de Damián, que se sentia obrigado a compartilhar a informação que lhe viera à mente alguns momentos antes. “O Colosso de Rhodes era oco” murmurou, antes de colocar outra uva na boca. O rosto de Anthony abriu-se em um riso solitário silencioso, levantando questões de ambas as pontas do semi-círculo. “Sua ereção tão ilustre está cheia de vento” explicou-se, e o sorriso que tinha nos lábios contaminou os do confeiteiro ao provocarem o efeito contrário no rosto do McCollough mais velho.

A conversa e a troca de insultos estenderam-se por o que poderiam ser horas e encerraram-se quando alguém recordou-se de perguntar as horas. O relógio de Allan dizia faltar dez minutos para a meia noite; o de Anthony, quase vinte. Decidiram-se pelo do mais velho, e os olhos dele e do espanhol acenderam-se como o fogo à suas frentes. Inquietos como crianças que esperam pelos doces, começaram a afastar tudo o que encontravam para o canto menos utilizado da toalha, sendo ininterruptamente argüidos por seus motivos. Por fim, insistiram que os outros dois se afastassem o tanto quanto pudessem do fogo, e Damián sentou-se entre os dois primos, enquanto Allan retirou-se para dentro da casa, retornando logo em seguida, tendo nas mãos uma sacola feita de papel.

O mâitre tomou seu lugar ao lado de Matthew, em descaso dos protestos deste, sentando-se de modo que pudesse ver os outros dois homens claramente. Sem ainda responder às indagações, retirou de dentro da sacola que trouxera duas esferas imperfeitas, enroladas em folhas de jornais como um merceeiro faria, e entregou a primeira a Matthew, e a segunda ao irmão, que a pôs nas mãos do ator; só então, sorriu e deu instruções para que as arremessassem, um de cada vez, na fogueira.

As labaredas alaranjadas cresceram de súbito, soando como se engolissem o ar a sua volta, e tornaram-se vermelhas por um instante, calando as imprecações do McCollough de olhos castanhos, que se precipitara e lançara a sua antes mesmo que o confeiteiro terminasse de falar. Seus olhos absurdamente abertos encontraram os do amante, sem compreenderem o que haviam testemunhado. Feitiçaria, talvez? Um novo ronco o fez mirar o fogo outra vez, que, desta vez, crescera para tornar-se um azul brilhante, compatível com os orbes admirados do primo mais novo.

“Eu não diria idolatria, mas acho que mereço, ao menos, remissão”

Da terceira vez, a cor era púrpura, lançada pelo espanhol. Enfim, um sorriso largo surgiu nos lábios do anfitrião. Fogos de artifício.

“Feliz Ano Novo” ouviu, a voz grave do outro agora mais próxima de si. Encontrou-o distante o suficiente somente para que coubessem as duas taças compridas que segurava, uma delas contendo pouco mais do que seria um gole. Matthew deslizou os dígitos com suavidade no dorso da mão que sustentava as bebidas antes de tomar para si a que sabia ser sua – a que estava cheia quase até a metade.

O sabor amargo e seco desceu borbulhando por sua garganta, espalhando calor por seu peito. Não bebeu tudo, pousou o cristal sobre a grama encoberta sem se importar se permaneceria em pé e ajoelhou-se para tomar nos seus os lábios do outro homem. A mão do braço de Allan que não circundara sua cintura acariciou sua nuca, prendeu algumas mechas onduladas de cabelo detrás de sua orelha e, enfim, afastou cuidadosamente os rostos para que os olhares se pudessem encontrar.

“Quer ir fazer sexo?”

Piscou. O convite viera na voz do mais velho, que ainda segurava sua cintura e procurava organizar seu cabelo. Umedeceu os lábios na própria saliva e tentou falhamente encontrar palavras que expressassem seus ímpetos. Quando percebeu, pusera-se em pé e forçara o outro a fazer o mesmo pela força com que segurava sua camisa. Seus olhos encontraram os do primo, que misturava o riso causado pelo espanhol com a indagação instigada por suas ações. Devolveu o sorriso, embora o sentisse marcado pela sua pressa, e desejou boa noite, bom ano, e começou afastar-se, sem afrouxar o aperto que tinha da roupa do outro homem. A meio caminho da casa, virou-se e ergueu o dedo indicador, sem deixar de andar, e deixou a ordem de que os outros dois fizessem sexo. A noite inteira. Faria questão de ouvir os detalhes. Allan sussurrou algo em seu ouvido e ele voltou a apressar-se, sumindo com o outro atrás da porta do alpendre.

Um aperto em sua mão fez Anthony desviar os olhos da casa e levá-los ao castanho penetrante dos do outro; e não pôde evitar um sorriso ao ter o dorso da mão tocado pelos lábios dele. O espanhol também não impediu que os cantos de sua boca se curvassem para cima ao sentir os dedos do ator deslizarem sobre seu rosto, trazendo-o mais próximo de si com suas carícias cuidadosas. Os olhos e as testas uniram-se antes que os lábios os fizessem, calma e docemente. Os braços enrolaram-se nos corpos e as mãos os cobriram de carinhos suaves. “Feliz Cumpleaños” o de cabelos compridos murmurou contra a pele do pescoço do mais novo, onde estivera a distribuir beijos superficiais, em troca de dedos perdidos em seu cabelo, que desorganizavam os cachos presos em feixe pela velha tira de couro.

“Este ano será ótimo, verá” a voz do ator soou próxima ao seu ouvido, seu hálito quente tocando a curva de sua orelha, um beijo sobre o círculo escuro que tivera ali desde o nascimento. A resposta o fez rir e separar-se do McCollough o suficiente para que pudesse encará-lo e explicar a confusão. Desejara-lhe um feliz aniversário. Desculpe, só compreendi o feliz. O riso daquele homem o engolia como uma onda, afogava-o em algo bom.

Com o que lhes restava de ânimo para o trabalho, terminaram de transportar as travessas de volta para o alpendre e enfim descansaram completamente, divertindo-se com as últimas esferas de pólvora e minerais, presos um nos braços do outro, indesejosos de deixar qualquer calor que houvesse entre eles escapar. Aproximaram-se da fogueira e terminaram por deitarem-se, os dedos das mãos escrivãs entrelaçados.

O céu, de um negro profundo e limpo de nuvens, exibia suas estrelas, e Damián as apontava, nomeando-as, enumerando seus usos, desenhando constelações com a ponta do indicador. Anthony, com a cabeça sobre seu ombro, adormecera há algum tempo, embalado pela cadência da voz do outro. O espanhol não conseguia ofender-se ou enraivecer-se com o sono do McCollough diante de suas explicações, mas via-se preso pelas feições do mais novo, atraído pelas linhas despreocupadas que o adormecer lhe acentuava. Beijou-lhe a testa, abraçou-o, o rosto aconchegado no pescoço do inglês, e fechou os olhos, sentindo-se subitamente exausto.

Haveria tempo para lecionar-lhe sobre estrelas e navegações outro dia.

< parte iii| extra >


Como um pedido de desculpas por não ter havido um conto de natal.

[personal profile] helsing 2012-01-01 07:07 pm (UTC)(link)
como se precisasse de presente. u.u

"eixou a ordem de que os outros dois fizessem sexo. A noite inteira. Faria questão de ouvir os detalhes." ♥♥♥♥