radostia: (le beijo)
Anna H. ([personal profile] radostia) wrote2012-02-13 05:09 pm

Vinagre

Matthew finalmente adormecera. Deitara a testa sobre a mesa, aparada por uma das toalhas remanescentes, gemera, contradissera-o, exclamara já com menos fervor algumas calúnias e, com um suspiro, calara-se, rendido à fadiga.

Pela manhã, encontrara-o no gramado atrás do casarão. As mechas onduladas do cabelo escuro estavam presas atrás da cabeça para aliviar o calor e descobrir os ombros, que se avermelhavam com o resto do corpo sob o sol escaldante. Sobre a toalha em que se deitava estava também um caderno, aberto numa página repleta de rabiscos, os óculos de grau e a caneta com os quais os versos haviam sido desenhados, ambos abandonados pelas mãos em cujos punhos agora apoiava a cabeça. Não vestia nada – as roupas estavam jogadas sobre o banco de madeira – e acordou somente quando o outro cutucou-lhe o quadril com a ponta do sapato. “Você bem que podia dormir assim à noite.”

Matthew virara-se para ele e esforçara-se para encará-lo enquanto protegia os olhos da claridade. “Nu?” perguntou, deixando um sorriso típico e malicioso florescer em seu rosto, “Quem não quer dormir despido és tu.”

“Sossegado” o mais velho fingiu não ter ouvido a última parte do comentário. “Achei que estivesse acordado.” Matthew pôs-se em pé e tentou capturar-lhe os lábios, e, mesmo tendo sido impedido pela altura e pelos braços do confeiteiro, o sorriso não lhe esmoreceu – “Achei que houvéssemos superado isso.” Allan afastou-o e, retornando para a sombra do alpendre, recomendou que saísse do sol. Ouviu algum xingamento na voz do jornalista e o caderno atingiu suas costas. É para ti, ouviu e virou-se para encará-lo. Matthew sorria em concordância com os próprios pensamentos enquanto apanhava o resto das coisas no chão, sem deixar de olhá-lo.

IV Ode ao Pênis era o nome do poema. Achava difícil acreditar que aquele era apenas o quarto.

A vermelhidão na pele do McCollough continuara a agravar-se com o passar do dia, mas não tanto quanto o ardor. O mais novo confessara também ter-se deitado no gramado quase toda a tarde do dia anterior, depois de ter posto ordem em alguns cômodos e recebido as encomendas do mercado, e, após o banho que o outro lhe preparara e recusara a tomar consigo, os efeitos de expor-se com tanto afinco à glória do verão principiaram a aflorar, e o fizeram com tanta violência que quase o faziam desistir de tentar levá-lo para cama (embora soubesse que a cadeira, a mesa ou o tapete também serviriam, dependendo do cômodo em que se encontrassem).

No decorrer da tarde, Matthew desanimou-se em suas investidas para dominar o mais velho e fazê-lo ceder à sua libido, que vinha inflamando-se há semanas, impedido pela sensibilidade exagerada a qualquer toque sobre sua pele. Ao pôr-do-sol de horas tardias, encontrava-se sentado na ponta da cadeira enquanto Morris embebia um par de camisas e calças em água e vinagre branco para que as vestisse e preparava talvez o quinto bule de chá desde que chegara, sob os protestos e reivindicações por uma taça ou meia garrafa de vinho. Gemia e amaldiçoava cada sopro do vento e cada dedo do garçom que o tocava ao ajudá-lo a mudar as roupas encharcadas, num rompante genuinamente mal humorado, como o outro nunca testemunhara. Acostumara-se ao sorriso e ao deboche aparentemente inabaláveis do mais novo e doía-lhe vê-lo tão fora de si, mesmo que não pudesse deixar de admitir a diversão que tinha em vê-lo incapacitado de tentar cruzar os limites por si estabelecidos. O que relutava em admitir era o ímpeto de beijá-lo e desculpar-se por tê-lo afastado mais cedo.

Antes que escurecesse, Allan acendeu os candeeiros, preocupando-se em mantê-los afastados do McCollough, e por isso acabou por concentrá-los sobre o balcão de mármore onde se ocupava com o jantar. Cercado por chamas e próximo ao fogão onde a lenha queimava, suava ao revezar a tentativa de conjurar algo a partir de ingredientes estranhos à sua especialidade e os cuidados que prestava ao mais novo – o que incluía expandir a níveis desconhecidos a própria paciência para suportar a birra do menor –, mas limitava-se a secar o rosto e o pescoço com um pano, vez ou outra mergulhando a cabeça sob a torneira. Livrara-se somente da gravata e parecia ignorar a opção de desfazer-se da camisa ou até mesmo do colete.

O anfitrião rejeitou a sopa de tomates, dizendo-se cheio de tanto chá. Morris ainda insistiu, enumerando-lhe os benefícios da refeição e as necessidades de repor líquidos e nutrientes, mas Matthew parecia ignorá-lo. Pedia, com a voz arfante que a temperatura elevada do próprio corpo lhe causava, que trouxesse vinho e que encontrasse um modo de chupá-lo sem o machucar. O garçom apenas pressionava com cuidado uma toalha molhada contra seu rosto e afastava as mechas da franja para onde não irritariam a pele sensível.

Matthew iniciara o que pretendia ser um monólogo sobre os benefícios do sexo oral em vítimas de insolação, mas que era periodicamente interrompido pelo mais velho, que, sem lhe dirigir o olhar, corrigia suas hipérboles e eufemismos e recebia em troca palavras de pouco carinho.

Ao percebê-lo enfim vencido, deixou um suspiro de alívio abandonar seu corpo. Sentou-se na cadeira mais próxima e deitou também a testa sobre a mesa. O jornalista tinha os braços postos no tampo de madeira da forma mais confortável que encontraram e ele respirava com certa calma. Allan hesitou antes de erguer-se e, com cuidado, beijar-lhe o topo da cabeça.


Feliz dia Treze pra [personal profile] helsing <3


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