radostia: (le mão)
Anna H. ([personal profile] radostia) wrote2012-02-21 01:05 am

joel's diner

George não tocara no waffle. Segurava o garfo e o girava de um lado para o outro, mas seus olhos estavam fixos no tampo da mesa, em algum lugar entre os dois pratos. Na verdade, o homem não lhe dissera muito desde que o reencontrara mais cedo – contara-lhe, meramente, o destino de sua viagem e o que o levava a ele, e consentira à companhia de Reuben ao não o impedir de segui-lo.
 

“Da última vez que estive aqui,” George começou, após um longo tempo, deixando de mover o talher. Sua voz se iniciara rouca, como se fosse um grande esforço fazê-la soar. Reuben interrompeu o trajeto da xícara até seus lábios e levantou os olhos esverdeados até o outro, sentado à sua frente. “Foi para o transplante.” – afundou a lateral do garfo ao redor de um dos quadrados dourados do waffle e riu com amargor ao fazê-lo – “Lembro de pensar na sorte que era não te ter ali.”

O ruivo sentia seus dedos tremerem ao redor da porcelana quente. Queria desviar o rosto, mas não tinha coragem. O outro esperou alguns instantes antes de continuar.

“Acho que você teria sido capaz de matá-lo.”

George deteve-se antes de poder colocar o quadrado destacado na boca e devolveu-o ao prato para despejar xarope de bordo sobre todo o café da manhã – não importava que estivesse doze horas atrasado para a refeição. “Isso depois de me ter socado o olho e os rins por ter aceitado.”

Ele estava certo.

O aperto na garganta de Reuben cedeu o suficiente para que pudesse se levar a sorver um gole do café e abaixar os olhos. A árvore desenhada com a espuma do leite se desfizera completamente. Talvez devesse dizer algo, mas o quê?

“Ele perguntou por você.”

O irlandês por pouco não se engasgou. Seu primeiro ímpeto foi perguntar o que havia sido dito a seu respeito, entretanto, matou-o tão logo havia surgido. Era capaz imaginar sozinho, e sabia que dizer em voz alta as palavras que tinha na memória não faria qualquer bem ao outro. Feriam-no muito mais do que a si.

“Você não fuma mais?”

Reuben ergueu outra vez o rosto ao ouvir a pergunta e encontrou os orbes castanhos do escocês fixos em si. Havia preocupação misturada ao seu luto. “Você parece estar precisando de um.”

George nunca deixaria de conhecê-lo. Nunca deixaria de ser George. Ademais, sentia-se velho demais para mudar quem era ou extinguir os vícios antigos que ele uma vez lhe permitira, mesmo a contragosto, guardar. O maço pesava, intocado, em seu bolso desde que o avistara, pela manhã, em respeito à tentação que seria para George.

“É proibido aqui.”

O mais velho ergueu as sobrancelhas, surpreso. Uma das poucas emoções que ruivo conseguira registrar em seu rosto durante todo o dia.

“Já há alguns anos. Joel agüentou tanto quanto pôde, mas iam fechar o diner, e, bem, Nova York não seria a mesma sem o Joel’s.”

Reuben alegrou-se ao vê-lo esboçar um sorriso para sua resposta, mesmo que tão fraco e momentâneo.

“Dissemos a mesma coisa quando virou um diner.” George murmurou, baixando o olhar até o próprio prato outra vez.

O irlandês riu. Era verdade. Uma garçonete aproximou-se para oferecer-lhe mais café, e enquanto ela o servia, sua mente iniciou uma frase, você se lembra de quando..., mas esqueceu-a ao desviar os olhos da xícara até o homem.

O moreno apoiara o cotovelo esquerdo sobre a mesa e o rosto na mão do mesmo braço, cobrindo com a palma os olhos. Lentamente, seu peito cresceu e depois diminuiu, conforme o ar era expelido através de seus lábios entreabertos. Trêmulos. A mão destra cerrara-se num punho apertado que fazia as veias de seu dorso saltarem.

A intenção de fala do mais jovem prendera-se à sua garganta e assomara-se ao aperto anterior, tornando-o volumoso e sufocante.

“Eu sinto muito” George disse, após descobrir o rosto. Havia angústia em seu tom. “Eu não...” Calou-se, mordeu os lábios e forçou-se a encarar o mais novo. Seus olhos mostravam dor, mas Reuben não era capaz de distinguir sua causa exata. “Eu não deveria ter deixado você vir.”

Não conseguiu responder. Tentou ao menos chamar-lhe o nome. Seus lábios abriram-se debilmente, mas sua voz se perdera.

“Isso...” o escocês recomeçou, recolhendo os braços para a borda da mesa, “Isso é problema meu.” Mordeu com mais força os lábios antes de procurar o olhar do mais novo outra vez. “E você estava saindo de férias, e...” George engoliu em seco. “Eu realmente não mereço.”

A voz rouca do mais novo soou, falha. Chamava-o pelo nome, mas não foi ouvido.

“Principalmente depois do–“

Pare.

George calou-se. Reuben esperou seus dedos e lábios deixarem de tremer antes de falar outra vez.

“Aquilo realmente não importa agora.” Começou, enunciando fraca e lentamente as palavras enquanto girava a xícara sobre o pires. Esperando coragem para encará-lo. “E o cuspe que eu sempre quis dar na cara do maldito do seu pai é meu problema, sim.”

Tentou rir, mas não conseguiu. Não era o que queria ter dito. Não tinha, contudo, coragem para dizer o que precisava dizer, o que o outro deveria, precisava ouvir. O café esfriara. “Deus, era a única coisa que aquele homem mereceu a vida inteira. Um cuspe na cara e outro na lápide.”

Quando conseguiu erguer o rosto, viu que George desviara o próprio na direção da janela, embora não parecesse observá-la. Não queria ouvir as palavras do irlandês. Reuben conteve a própria língua.

Sou eu, George.

Como eu poderia não ter vindo?




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