radostia: (le chão de madeira)
Anna H. ([personal profile] radostia) wrote2012-02-24 01:55 pm

whisky on the rocks

George deixou a bolsa de viagem sobre a colcha branca após ter enfim desistido de acomodar-se no sofá. Reuben ocupava-se em procurar provisões nas gavetas da cômoda encostada à parede, na direção dos pés da cama. O silêncio que se instalara no apartamento era quebrado somente pelo som dos trilhos sendo puxados e empurrados conforme o irlandês buscava algo específico, mas talvez a dificuldade em encontrar o que queria se devesse mais à sua falta de concentração do que à penumbra do cômodo. Convidara o mais velho por impulso ao ouvi-lo dizer que precisava procurar um motel, e depois vira-se obrigado a insistir até que George cedesse. Levara algum tempo para corrigi-lo, sem perceber que ele dera o endereço de seu antigo apartamento ao motorista do taxi. Eram duas coisas que se relacionavam. Combinavam. George e aquele endereço, o som do nome de sua rua e o número de seu prédio na voz dele.

Mas aquilo era muito distante. Outras coisas haviam-se tornado mais comuns nos lábios do escocês quando lhe falava. Coisas que, apesar de também distantes, ainda faziam Reuben cerrar os punhos. Coisas que levaram seus lábios a se partirem e a sua voz a atravessá-los antes que ele pudesse pensar em se calar.

“Você ainda pensa naquilo?”

Não ousou virar-se ao jogar sobre a cama as peças de roupa que escolhera. Podia sentir os olhos de George em suas costas. “Vez ou outra,” ele murmurou, “geralmente nas sextas feiras”.

Lençóis. Precisava deles para cobrir o sofá. Seus dedos pouco firmes encontraram o puxador da gaveta e o trouxeram em sua direção. Não queria perguntar, mas não podia não fazê-lo. Seu inconsciente chutava as palavras de sua boca.

“Você ainda me quer?”

Um sorriso curvara seus lábios. Nervoso, ansioso, debochado, provocador. Mais aqueles do que estes, mas talvez de costas o escocês não percebesse. Desistiu de tentar escolher as cobertas e puxou duas quaisquer, as quais deitou sobre o pijama. A demora de George para respondê-lo o fez virar-se um pouco em sua direção. O visitante sorria um pouco, como se houvesse escutado algo que não merecia ser respondido.

“O que te faz pensar que quereria?”

Reuben voltou a encarar as gavetas. Seus dedos se haviam acalmado e ele pôde selecionar uma toalha. Sorriu, quase como costumava fazer quando dizia o que estava para dizer.

“Sou eu, George. Você sempre vai me querer.”

O efeito no outro, contudo, não fora o mesmo. O escocês abaixou os olhos ao ouvir a resposta do anfitrião. Sua mão encontrou o zíper da própria bolsa e o fez correr pelos dentes, e, ao percebê-lo completamente aberto, voltou a fitar as costas de Reuben. Parecia mais magro que da última vez que o vira.

“E você?” começou, chamando-lhe a atenção. Stevens já não tinha mais o que procurar nas gavetas, mas continuava apoiado numa delas. “Ainda me quer?”

“Não.”

O irlandês lhe lançou um rápido olhar, mas logo retornou para a cômoda.

“Bom.” George disse, voltando a observar a bolsa. “É melhor assim.”

Talvez realmente fosse.

O peso do silêncio que se seguiu forçou Reuben a levantar a voz outra vez, trazendo à tona o único assunto que conseguia conceber capaz de arrancar alguma resposta do outro.

“Como está Charlie?”

Enorme.” A resposta fora imediata, mas num tom diferente. O mais novo soube, antes de encará-lo, que sorria. “Não pára de crescer” completou. Quando olhou para Reuben, a luz que vinha da sala refletia nas íris escuras e esverdeadas, contrastantes com os cílios claros e a pele levemente amarelada com sardas que cobriam mais visivelmente a ponte do nariz e se estendiam até as maçãs do rosto – mas, se observadas com cuidado, cobriam-lhe toda a tez e, apesar da blusa que usava impedir a verificação, sabia que espalhavam-se pelo pescoço e iam dos ombros e dos braços até quase o fim das costas.

“Quantos anos ela tem?” o irlandês, indagou, aproximando-se meio passo enquanto somava os anos desde que a conhecera – “Sete?”

Seu transe não durara mais que algumas frações de segundo.

“Quase – ela mostra os pés, as mãos, faz eu e Miranda fazermos o mesmo, corta os dedos que sobram e conta os dias até o aniversário.”

A lembrança do último fim de semana que passara com a filha o fez alargar o sorriso.

E, pela primeira vez, Reuben engoliu as palavras que lhe vieram à língua. Ela ainda tem o seu nariz? Não. Não o faria pensar naquilo por tantas razões. Seu rosto aos poucos voltou à expressão de antes, mesmo que observasse o breve regozijo do outro.

“Eu vou sair um minuto e te deixar à vontade, sim?” iniciou, tomando nos braços o que deixara sobre a cama. “Faça-se em casa” continuou, enquanto cruzava o portal que separava o quarto e a sala, sem ter obtido resposta, “não deve ter nada na geladeira. Eu vou comprar alguma coisa, já que você não comeu nada no Joel.”

George murmurou um agradecimento e um pedido de desculpas pelo incômodo antes de ser deixado a sós no apartamento.



Quando abriu a porta e cruzou a soleira, carregando uma sacola de papel, foi a primeira coisa que viu. George sentado de frente para a entrada ao balcão da cozinha. Seguro entre os dedos indicador e médio da mão destra, estava um copo cujo conteúdo era, no fundo, de um caramelo claro que se transformava em amarelo pálido até desaparecer no topo. Não precisava ter visto a garrafa para saber que era whisky.

O líquido pálido parecia ter o escocês sob hipnose.

Reuben hesitou antes de deixar as compras, a chave e o cachecol sobre o aparador próximo a porta e aproximar-se com cautela do outro. Sua voz saiu, relutante, mas conseguira conduzir alguma firmeza. Autoridade.

“Você já bebeu?”

Seus dedos tamborilaram a borda do balcão. George não se moveu ou pronunciou qualquer som.

A diferença de cores era culpa do gelo que derretera.

Chamou-o pelo nome, sem saber se soara autoritário ou piedoso.

Sua resposta foi um breve aceno com a cabeça, de um lado para o outro. Era o suficiente.

Com cuidado para ser o mais gentil possível, retirou com alguma dificuldade daquela mão o copo. Não sabia se seu coração acelerara ou parara ou senti-lo lutar, mas aliviou-se ao afastar-se dele tanto com a dose quanto com a garrafa. Rodeou a divisória da cozinha e, cruzando as costas do mais velho, alcançou a pia, onde despejou o conteúdo dos dois recipientes.

Tentou pensar em algo para dizer que o distraísse, mas não formulou nada que excluísse as compras ou o frio que fazia nas ruas. Tomou fôlego e fez-se dar passos que traçassem o caminho de volta para a porta enquanto iniciava alguma frase que envolvesse o café de boa qualidade que trouxera, mas as palavras lhe escaparam ao sentir a mão do desenhista em seu pulso. Deteve-se, tanto pelo alarme, quanto pela resistência do outro, e virou-se para ele, confuso.

George, tendo encontrado nos seus os olhos do mais novo, não os deixou escapar enquanto levantava-se languidamente do banco e o guiava somente com sua aproximação pelos dois passos que os separavam da coluna que fazia o quarto canto do espaço em que se encontravam. Teve-o contra ela e preso pela cintura com o aperto de suas mãos. Os rostos estavam próximos, respiravam o hálito quente um do outro, e o escocês pôde sentir a nicotina nas roupas de Reuben e, principalmente, no ar que ele expelia.

Desejava-o.

Desejava-o quase como desejava os cigarros que ele pusera nos lábios e o scotch que sujara seus dedos ao derramá-lo.

Pare.

Era a voz dele. Baixa, mas resoluta.

Pare.

A cada respiração era mais difícil obedecê-lo.

“Porquê?”

Sua testa recostou-se na dele, seus olhos se fecharam por um momento.

Reuben estremeceu sob suas mãos, sem lhe responder.

“Só um beijo.” Pediu, já sentindo nos lábios a antecipação do sabor dos dele. Reuben e cigarros.

As palmas do ruivo espalmaram-se em seu peito, tentando empurrá-lo. “Um beijo conosco nunca é só um beijo.”

George sorriu. “Achei que você tinha dito que não me queria.”

O irlandês falhou um pouco. A pele do escocês cheirava ao seu sabonete, mas ainda guardava a identidade própria. “E você acreditou?”

“Não.”

A mão do visitante posicionou-se na nuca de Reuben, acariciando-a. “Então porque não me beija?” O tom de sua voz era baixo, sedutor.

As palmas do mais jovem o empurraram com mais força. Seria forçado a dizer o que desejava não ser a verdade.

“Agora, você só me quer pra esquecer que seu pai morreu” murmurou, coletando coragem para pronunciar mais claramente, sem desviar os olhos dos do escocês. O corpo de George se retesou e um frio incômodo se apossou de seu estômago. “Pra você, seria só sexo, mas pra mim significaria alguma coisa.”

O olhar de Reuben era duro contra o seu. “Eu não quero ser o substituto da sua garrafa de whisky.”

Lentamente, Crawford desfez a prisão na qual tinha o outro e deixou-o afastar-se. Reuben diria que ele se sentia envergonhado, e acertaria em parte. As extremidades do anfitrião estavam trêmulas, mas ele ainda conseguiu firmeza para agarrar o cachecol e as chaves e trancar o mais velho no apartamento, dizendo que o veria pela manhã.

George precisou apoiar-se na coisa mais próxima que alcançou ao perceber que ele não voltaria. Encontrá-lo fora a melhor coisa que poderia ter acontecido e agora o fizera ir embora, tão magoado quanto havia sido deixado.

Era Reuben.

Nunca poderia ser só sexo.







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