radostia: (les patitas)
Anna H. ([personal profile] radostia) wrote2012-05-01 12:16 pm

O Pianista

Não sabia dizer se primeiro aprendera música ou se ela o prendera antes, já não se recordava de outra coisa. Dia e noite, um pianista de dez mãos tocava e tocava duas, três, às vezes cinco peças diferentes, e as acompanhavam vozes muitas vezes incorpóreas com solfejos e palavras de poemas que lera ainda na adolescência e o atormentavam quase incessantemente, pois o pianista, embora precisasse também de sono, necessitava dele com menos frequência que a psique onde habitava.



Descobrira que o único modo de agradá-lo e satisfazê-lo era com tinta e papéis pautados, com os quais fatigava o punho para tentar acompanhá-lo e aliviar a própria mente. Contudo, inesgotável seu repertório se mostrava, não como em um infinito recital, mas constantemente criado, a cada momento, no mesmo instante em que tocava, e as vozes o acompanhavam, seguiam-lhe a criatividade como se a compreendessem plenamente.

A música devorava então toda a sua existência. Determinava seu sono, seu apetite, seus humores, suas paixões. Fazia-lhe à noite gastar a vista e as velas e pela tarde desmaiar sobre as partituras; soava tão alta que o fazia preferir a fome às frases inacabadas, às notações por adicionar. Seus bons dias coincidiam com o adormecimento do pianista; os maus, com os em que ele animava-se a usar os cinco pianos à sua volta. Seus amores eram os dias bons, o cão que lambia seu nariz e o jovem que diariamente lhe trazia pão e uma garrafa de leite em troca de uma canção ou uma dança. Em dias comuns, abrandava os dedos do pianista projetar sobre um piano material os próprios e cantar com mais emoção do que talento, como se ele , o respeitasse naquele momento somente; mas se por acaso se alongava no prazer, ele – logo retornava à sua furiosa criação, com mais vigor que antes de ser interrompido.

A música o consumia enquanto ele tentava consumá-la. Entregava-se às partituras, que, terminadas, sobre as mesas e sob elas se amontoavam, somente para delas se ver livre, e assim ter liberdade para escolher quando retornaria a elas, quando faria segundo o próprio desejo soar o próprio piano. Mas a música o tragava como o mar, sem intenção de o devolver. Era escravo dela e de seu incansável criador.

Ela o cercara desde muito cedo, nas aulas do próprio pai e no incentivo da mãe, nos concertos e recitais a que compareciam, nas pessoas que por intermédio deles conhecia. Criam todos que cresceria para tornar-se um notável compositor, a escrever óperas e sinfonias, mas desgostaram-se do que compunha, do que lhe era ditado a compor, antes aos poucos, hoje numa torrente. A somente um pequeno punhado de desconhecidos interessava ouvir, e pouco, aquilo que o pianista criava e ele transcrevia, assinando com o próprio nome. Não tinha, contudo, interesse no interesse alheio, escrevia para satisfazer o louco impaciente em sua cabeça e alegrar-se no deleite do jovem que por dinheiro nenhum o alimentava. Trocava o fruto de punho e mente exaustos pelo pão e leite que nem sempre conseguia comer.

Caía, por vezes, sob a cólera de uma febre alta e debilitante que a contragosto o rendia à cama e colhia do rapaz a compaixão, que insistia em fazer-se seu servo e trazer à sua cabeceira o leite e o pão, e testava-lhe a temperatura e deitava sobre sua testa um pano úmido quando a sentia muito quente. Pelo toque daquela mão calejada em seu rosto, dispunha-se a tocar o quanto ele desejasse, mas já não o pagava pelos cuidados – agradecia por ser lembrado da própria humanidade.

Sentia que se não morresse pela doença, o faria pela ira e insatisfação crescentes do pianista, e não via na morte qualquer esperança, sem saber se ela definitivamente os separaria ou os traria mais próximos. Esperança via somente nas folhas pautadas, entregues à sua porta todos os domingos, e na fidelidade do garoto. Mas, se deveria ter a vida ceifada, e sentia que não tardaria, esperava apenas ter o rosto dele como sua visão última.


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