radostia: (le chão de madeira)
Anna H. ([personal profile] radostia) wrote2012-05-20 09:25 am

Resignação

O relógio não marcara ainda as sete horas quando a porta se abriu e deixou passar por si o ruivo, que trazia no braço uma sacola de papel e na mão um suporte contendo dois copos de café. "Você dormiu, ao menos?" ele perguntou depois de colocar tudo, inclusive as chaves, a carteira e o cachecol sobre o balcão da cozinha, sem parecer surpreso por encontrá-lo já desperto. A jaqueta, que não usava na noite anterior, foi pendurada atrás da porta.



George não o respondeu. Por algum tempo, observou-o tomar pequenos goles do próprio café enquanto dispunha os itens que retirava da sacola sobre a bancada próxima ao fogão e puxava de dentro dos armários os utensílios de que precisaria. Em algum momento, o som das portas e gavetas sendo abertas e fechadas cessou para dar lugar à voz dele. "Você tem alguma coisa pra dizer?"

Não era uma exigência por uma explicação ou por um pedido de desculpas. Reconhecera sua ansiedade, talvez até ouvira algum pensamento seu que escapara como algum murmúrio ininteligível e, quem sabe, capturara o sentido dele. George olhou os próprios sapatos e a bolsa de viagem ao lado deles, sem notar de que seus punhos se fechavam com força num gesto que o fazia recobrar o próprio controle. "É melhor eu ir" disse, enfim, levantando os olhos ao perceber que fora mais fácil do que imaginara. Seus joelhos já se haviam dobrado para permitirem que sua mão agarrasse a alça da bolsa quando a voz de Reuben ordenou que ficasse.

Havia decisão no tom da própria fala, decisão construída durante a madrugada que passara em claro naquele apartamento desconhecido, enquanto remoia as tantas coisas que roubavam seu sono – definitivamente, não podia permanecer –; mas a firmeza nas palavras do ruivo encontraram caminho através da razão dos argumentos de sua consciência e trouxeram à tona aquilo que ele procurava ignorar. Queria ficar.

Seus dedos se fecharam ao redor do tecido sintético, e ele voltou à sua estatura completa. Tentou outra vez. Realmente seria melhor que fosse – já o perturbara o suficiente. Exatamente por isso, o outro respondeu, que deveria ficar.

Por um instante, imaginara que ele de fato desejava a sua presença. Não. Reuben era polido demais como anfitrião.

"Seu café vai esfriar."

Seus olhos pousaram sobre o copo de papel vermelho, ainda no suporte, quase do mesmo tom da bolsa, a qual deixou cair sobre o tapete.

"Você ainda toma macchiatos com caramelo?"

Seus pés levaram com certa, mas pouca hesitação o seu corpo ao redor da mesa de centro até o balcão onde a bebida estava. Era verdade, o café estava apenas morno, quase frio. Sentou-se no banco e girou o copo algumas vezes entre os dedos antes de levá-lo aos lábios. Reuben parecia estar misturando o conteúdo em pó de uma caixa com alguma outra coisa dentro de uma vasilha, e ainda não derrubara nada. Ele nunca fora realmente desastrado, exceto quando tentava preparar algo na cozinha por si só. Quando dividiram um apartamento, ele fizera o alarme de incêndio disparar quatro vezes. E agora parecia estar lhe fazendo panquecas.

Tomou outro gole do café e tentou desviar a própria atenção. O sabor do caramelo era forte, mas o amargor do expresso o balanceava. A logomarca branca lia Bleau. Azul. A cor da camisa de Reuben. Um azul escuro, desbotado não pelo uso, mas pela moda, e que fazia um contraste bonito com a pele clara e o cabelo laranja. Ele parecia absorto na tarefa, e parecia executá-la com primor. Conseguia perceber o quão magro ele estava quando seus braços encostavam-se ao tronco, e o tecido parecia infinito ao redor de sua silhueta. Emagrecera mais naqueles dois anos do que nos seis anteriores a eles.

Quando ele se virou, trazendo nas mãos o prato de porcelana branca e os talheres, não buscou dissimular sua observação. Deixou-se encontrar as íris verdes, que o fitaram de volta durante aqueles curto passos, sem se sentir incomodado, e depois, alarmado com o tilintar dos aparatos sendo dispostos à sua frente, desviou o próprio olhar. Panquecas de mirtilos, afogadas em xarope de bordo. Vinte anos antes, era Joel quem lhes servia aquilo e uma caixa de cerveja barata quando acordavam desorientados no chão de seu apartamento, de ressaca ou ainda bêbados da noite anterior.

Reuben sentou-se ao lado oposto do balcão, girando o próprio copo, agora quase vazio, entre os dedos. Seus olhos divagavam pela parede oposta, e depois retornavam à bebida. Às vezes, encontravam os seus e os sustentavam, como se buscassem lhes dizer alguma coisa. Pareciam doloridos. Então, desciam novamente para observar o carrossel em suas mãos.

As panquecas estavam boas. Pareciam-se com as da irmã dele.

"Você tá bem?"

Sentia os olhos dele sobre si, mas não se moveu para respondê-lo. Havia espertado um mirtilo com o garfo e agora observava o xarope viscoso escorregar pela superfície azulada. A pergunta reanimara o desconforto em seu peito, mas o que sentia já não era o mesmo que lhe torturara nos dias anteriores. Havia um espaço vazio, oco dentro de si. A consciência de que, com aquilo, restava-lhe no mundo somente a própria filha, e mesmo ela parecia aos poucos se afastar.

Bem?

Reuben ainda o fitava. A apreensão dele fazia cócegas na sua pele.

Deu de ombros e meneou a cabeça. "Acho que sim." Talvez estivesse. O cheiro doce o nauseava, mas não ousou afastar o prato. Depois de tudo o que fizera pela sua pessoa pouco merecedora, não queria ser rude com o irlandês.

George.

Encarou-o. Seus olhos, debaixo das sobrancelhas ralas e apertadas, não acreditavam em suas palavras. Os lábios finos, crispados, cobravam-lhe a verdade.

“Reuben, olha pra mim” começou. Não era difícil falar com ele. “Eu posso ter chegado perto, mas não bebi uma gota desde que soube.” Inspirou ar, sem pressa. Não sabia se era a simplesmente ele ou aquele vazio que facilitava tanto. “Eu sobrevivi à minha mãe e ao Ellis, acho que aguento o meu pai.”

O ruivo não lhe disse mais nada. As íris verdes recuaram de seu contato, não parecendo satisfeitas com a confissão, como se o oco do escocês houvesse induzido um em seu próprio peito. Resignação. Observando-o terminar a bebida com os olhos baixos, perguntou-se se não deveria ter sido tão franco. Bobagem.

As panquecas haviam esfriado e estavam ensopadas com a cobertura, e não as comeria mais, mesmo que recuperasse a fome. Não saberia dizer se aquele silêncio longo o incomodava ou não. O que ele poderia lhe dizer? Voltar a maldizer o morto? Também não havia mais nada que pudesse dizer a ele quanto àquilo. Talvez devesse mudar o foco da conversa para os vivos.

"Como estão Monica e Elliot?"

O irlandês ergueu o rosto e sorriu um pouco. "Você deveria ir visitá-los. Eles ficariam felizes de te ver," murmurou, esquecendo por um instante o movimento dos dedos. "Bem, Elliot vive dizendo que quebraria esse seu nariz horroroso antes de te abraçar, mas você sabe que ele não tem força nem pra abrir o pote de biscoitos. E você teria uma surpresa."

"Uma surpresa?"

Ele riu e ergueu o copo como se pretendesse beber dele, mas parou ao lembrar que estava vazio. Piscou algumas vezes antes de pousá-lo outra vez e falar.

"O pequeno Vincent."

As suas sobrancelhas se curvaram, a voz quase lhe faltou. "Você é tio?"

Imaginava-o com a criança no colo, tão ruiva quanto ele e a irmã, encurralado no círculo vicioso de sorrir da gargalhada do pequeno e fazer-lhe cócegas na barriga para que gargalhasse mais, apaixonado pelas bochechas redondas e pelas mãos minúsculas, pelas gengivas nuas à mostra e pelos olhinhos brilhantes e apertados de prazer.

"É, sou. E padrinho."

Padrinho. Um segundo pai.

"Você já terminou aí?"

Encarou as últimas panquecas, meio comidas, e quis dizer que não, mas não o fez. Balançou a cabeça e encostou o talher na borda do prato, murmurando alguma afirmação. “Deixa, eu lavo tudo” disse ao vê-lo afastar-se em direção à pia, levando consigo a porcelana.

O som da água corrente contra o inox encheu a cozinha e logo depois se acalmou, reduzindo-se apenas a um chiado constante. Ele abrira a torneira com mais força do que o necessário. "Cristo, senta aí."

Ele passava muito tempo com Monica. Com Vincent, com o garotinho com quem ele certamente se derramava em afeições e carinhos. Aquele jeito de falar, Cristo, era dela.

“Sabe,” ele começou, baixo, sem muita certeza se deveria continuar, “você também seria, se não houvesse sumido.” Seus pulsos se apoiaram na borda da pia. “Padrinho, eu quero dizer.”

“Você não contou pra eles?”

A torneira foi fechada, e ele caminhou de volta para o banco, secando as mãos num pano. “Você pediu, não pediu?” Reuben não o encarava. “Eles não sabem de nada. Desconfiaram, até, mas esqueceram logo.”

O que deveria dizer? Obrigado?

“Não gostou do café?”

Seu copo ainda estava sobre a mesa, esquecido. “Não é isso” disse, tomando-o na mão para ponderar quanto ainda restava, e tomou um gole. Doce primeiro, amargo depois. “É que esfriou.”

“Eu trouxe café ontem; se quiser, faço pra você.”

“Não precisa, mesmo.” Estava sendo rude. “Obrigado.”

O irlandês gesticulou que não deveria se importar.

“Escuta” ele murmurou, depois de algum tempo. Seu tom era baixo, hesitante. “Você contou pra ele? Pro Robert, sobre a Miranda e a Charlie.”

Queria saber se seu pai morrera com a amargura de ter o filho namorando outro homem. Irlandês e ruivo, ainda por cima.

“Contei.”

Ele não gostou de ouvir aquilo.

“E?”

“Bem,” de repente, sua boca secara. Queria engolir em seco, mas não havia saliva. Via o pai, acomodado numa cama de hospital, tubos entrando em suas veias. Cinco anos antes. Charlie tinha acabado de completar seu segundo aniversário, e já colecionava algumas palavras no vocabulário. Andava, corria pela casa até tropeçar e cair, mas não chorava muito. Quando visitavam os pais de Miranda, perguntava sobre o papai do papai e ele dizia que talvez ela o conhecesse um dia, sabendo que jamais o faria. Robert rira ao vê-lo cruzar a porta do quarto. Ainda não entendera o porquê de se ter forçado a ficar ali. A ouvir o que ele tinha a dizer.

“Ele riu.”

Robert sempre ria.

O silêncio de Reuben denunciava seu arrependimento pela pergunta. As pálpebras cederam por um instante sob o peso da própria imaginação.
"Você tem saído com alguém?"

Ele o olhou, atordoado. Confuso. George deu de ombros. Qualquer coisa para tirar a voz do próprio pai de sua mente, mesmo aquilo. Apesar da pergunta, já sabia a resposta, e ela se confirmou quando o outro se demorou por alguns segundos para respondê-lo.

“Acho que sim.”

Quis rir. “Acha?”

Um suspiro escapou pelos lábios dele. Não muito finos, mas não grossos. Rosados, mas um pouco castigados pelo frio. Os braços se cruzaram próximos à borda do balcão. “Eu saí algumas vezes com essa mulher, Janet, e a gente se diverte bastante.” Seus olhos iam do amontoado de seus pertences sobre o mármore para a parede atrás do outro e depois voltavam para os próprios braços. Sardentos até as mãos. “Mas–”

“Sempre tem um ‘mas’.”

O riso dele era meio desesperado. “...mas às vezes eu durmo com esse garoto, Sean–”

“Sean?”

O fato de ambos saberem de onde vinha aquela atitude defensiva não o impedia de continuá-la, tampouco levava o mais novo a urgir que a abandonasse.

“...que acha o máximo estar ‘pegando’ um cara dezessete anos mais velho e cheio de sotaque.”

“E você dormiu com quem, ontem?”

Aquilo o havia ofendido.

“Com as almofadas da Janet, no sofá.”

Quis desculpar-se, mas não o suficiente para realmente fazê-lo. Desviou o próprio olhar na direção da sala, onde sua bolsa ficara. Talvez devesse ir. Realmente ir.

“Ele é sênior na faculdade de arquitetura...”

Que importava?

“... e acho que nunca o vi sóbrio.”

Olhou-o, e de alguma forma aquilo pareceu atrair os olhos dele, antes fixos nas unhas que abriam riscos na superfície do copo vazio. “É escocês, também?” indagou, sem conseguir conter o escárnio amargo contido no próprio tom.

Reuben deixou escapar um riso trêmulo. “Metade.”

Vinte anos antes.

“Você sente tanto a minha falta assim?”

Seu próprio sorriso era quase de deboche. Quase. Talvez mais por si mesmo do que por ele. Mas não havia gracejos no fitar dele, que não era duro ou pesado, mas ainda capaz de fazer seu peito apertar e esquecer a própria hostilidade.

Sinto.

Fitava-o de volta. Diretamente naquelas pupilas negras envoltas por um anel escuro de verde, à espera de um riso. Um puxão no canto dos lábios. Não estava mentindo. Admitira na noite anterior. Admitira, mas, ainda assim, o afastara.

Não importava. Não importava se o queria para esquecer, ou se o queria porque simplesmente era Reuben.

Não tivera consciência das próprias ações até que elas se houvessem completado. Os pés apoiados nos estribos do banco de ferro, o corpo inclinado sobre o mármore, as palmas contra as bochechas sardentas, os lábios contra os dele. Macchiato Caramelo e Caffè Latte com cigarros. Vinte anos antes, eram scotch e vodka com LSD, cigarros e o que mais pudesse encontrar.

O beijo foi superficial. Curto. E seguiu-se hesitante de um lado, contido do outro, ou um pouco dos dois em cada um. Cauteloso talvez fosse uma palavra mais apropriada. Permitiu-lhes apenas uma fraca prova dos lábios que conheciam há tanto tempo. O contato perdurou alguns instantes, sem aprofundar-se, e desfez-se a partir da retração do irlandês e a racionalização do escocês. Nenhum dos dois ousou buscar o olhar do outro.

Seu corpo retornou ao banco lentamente, por algum motivo acreditava que qualquer barulho pioraria a situação.

Com a testa apoiada nas mãos, as sobrancelhas juntas e os olhos apertados em arrependimento, balbuciou alguma rogativa por desculpas, temeroso de ser expulso do apartamento, mesmo que chegasse outra vez à conclusão de que deveria ir embora. Ouvindo Reuben levantar-se e seus passos se afastarem, presumiu que ele se dirigia à porta, exatamente para ordenar que fosse, e deslocou as palmas do cenho franzido para cobrir com elas a boca e impedir que os próprios pensamentos escapassem em voz alta.

Os passos pararam às suas costas, e a mão dele apertou seu ombro de um modo que lhe pareceu afetuoso, mas que ainda fez os músculos de seu peito se contraírem em apreensão. Inspirou tanto ar quanto podia, corrigiu a postura e o que conseguiu de sua expressão e girou no assento. Quando o encarou, Reuben aproximou-se outro meio passo, de forma a acomodar-se entre seus joelhos, e o olhar que ele lhe deu fez algo dentro de si se rasgar. Ele se inclinou um pouco mais sobre si e juntou as bocas outra vez. Se lhe perguntassem, não saberia dizer se fora ele ou o ruivo que começara a devorar o outro como se pudesse encontrar naquela saliva a cura de todos os males.

Não era sua culpa que suas mãos o puxavam contra si mesmo quando não havia mais espaço entre o próprio corpo e a magreza dele. Não foi sua culpa que suas pernas o fizeram levantar-se e dar aqueles passos em direção ao quarto e deram assim margem para que seus lábios procurassem mais que os lábios dele e para que suas mãos procurassem outra textura além do tecido. Então a boca dele se afastou da sua, e as mãos dele se espalmaram em seu peito para empurrá-lo não com a mesma dureza da noite anterior, mas com alguma súplica no tom autoritário.

“'Um beijo', George."

Reuben estava certo, sabia, e seria melhor que parassem ali. Sabia.

Suas palmas, não, e assim escorregaram das costas dele até a barra da camisa. No fundo, não se importava com o que seria melhor, não naquele momento, e sabia que Reuben via aquilo em seu rosto. Numa caricia contínua, ergueu-lhe a roupa ate a altura do peito e então dobrou os joelhos para que seus lábios pudessem beijar aquele abdome que quase não mais existia. Beijou-o outra vez, um pouco mais acima, e continuou até poder sentir as costelas atrás da pele. Doía-lhe que ninguém cuidava dele como ele precisava. Suas palavras o tocaram no pescoço com a mesma suavidade com que seus beijos o tocaram na pele recém-descoberta. Nunca era só um beijo.

O irlandês impôs uma fraca resistência aos toques subsequentes, e cedeu enfim sem saber se por pena ou se pela própria angústia – não que realmente importasse naquele instante. George o despiu com dor e tremeu com a ânsia de choro quando sentiu os lábios sobre a cicatriz em seu lado esquerdo. Reuben retirou o preservativo da primeira gaveta do criado mudo, e o escocês permitiu que sua confusão fosse substituída pelo êxtase dos toques dele.



O sono e o cansaço o entorpeciam. A cada respiração, fechava os olhos e sentia-se atingir o limiar da consciência, e então retornava ao expirar o ar. A luz do sol nascente atravessava com dificuldade as cortinas e fazia a cabeça laranja do outro homem parecer mais clara, mesmo que mal iluminasse de fato o aposento. Reuben caíra ao seu lado, e seu último movimento – o de desfazer-se da camisinha – se dera havia quase uma eternidade, ou ao menos assim lhe parecia, e o silêncio se deitara sobre os dois.

A voz dele o teria acordado se houvesse realmente adormecido. As pupilas pequenas dele o fitavam quando abriu os olhos. As íris verdes pareciam mais claras. Os lábios estavam avermelhados. "Ela ficou mesmo com a Charlie?" Respirou algumas vezes antes de respondê-lo, e as palavras lhe saíram com dificuldade. "Uma mulher jovem, bonita e traída contra um veado quarentão adúltero? Claro que ela conseguiu a custódia." A consciência quase lhe escapou ao fim da sentença. "Eu fico com os fins de semana, mas os sábados e a tarde de domingo são supervisionados pela Miranda." Reuben não esboçava reação, apenas o observava. "Então ela vive com três pessoas que me abominam, e não da pra desfazer isso em uma noite e uma manhã por semana. Eles até tentam esconder isso dela, mas criança sente essas coisas, e se os avós e a mãe têm algo contra alguém, dificilmente ela não os imitará." Respirou mais fundo, como se puxasse do ar mais energias, mas não disse nada. O outro voltou o rosto na direção ao teto, expondo uma marca arroxeada na base do pescoço, quando percebeu que a resposta ao seu questionamento não seria prolongada.

Sentiu vontade de estender o braço e tocá-lo, de preferência onde ele estaria mais sensível, como se para averiguar que aquelas marcas eram mesmo suas. Em vez disso, fez-lhe uma pergunta. "Você gosta de algum deles?"

Era uma pergunta egoísta, extremamente egoísta, mas sua única preocupação era ouvir o que esperava.

Um espasmo de humor percorreu o rosto do ruivo. "Quer saber se os amo?"

Não respondeu. Abriu os olhos outra vez e o fitou até escorregar outra vez, sentindo o coração palpitar com a demora.

"Eu não amo ninguém, George." Seu rosto não demonstrava nada. Não era aquilo o que esperava, o que queria ouvir. "Nem ninguém me ama. E estão muito certos."

O questionamento fora inevitável. Escapara de seus lábios antes de perceber. E a gente? A resposta não tardou. "A gente não se ama, George" ele disse, ainda inalterado. "Isso aqui é outra coisa, é mais costume que qualquer tipo de amor."

...Costume?

Reuben suspirou, quase como se sua falta de compreensão o irritasse. "A gente se comeu por doze anos e passou um punhado de merda juntos," começou, "daí sempre que a gente se esbarra, esquece a merda que deu a ultima vez que a gente tentou alguma coisa e só pensa na parte boa da porra toda." Ele respirou mais fundo antes de continuar – "e como somos dois desgraçados miseráveis, acabamos caindo um com o outro na cama por ser familiar e provavelmente a melhor coisa que vamos conseguir. E isso não é amor, George, é desespero."

Desespero, de fato. Mas não só aquilo. "Você não me amou primeiro por desespero?"

Ele finalmente o encarou. "Então talvez você estivesse certo." Não estava sério, mas não ria, e falava como se suas palavras detivessem a pura verdade. "Eu só queria que a minha vida fizesse algum sentido, e o meu tiro saiu pela culatra."

Não acreditava. Não conseguia, porque as sobrancelhas dele ameaçavam se apertar, apesar do rosto impassível. Não, não cria, porque aquela afirmação contradizia tantas coisas e destruía muitas outras. Não aceitava, mas... Não. "Isso é mentira," disse, "e você sabe disso."

"Você estragou a minha vida, George."

Sua respiração falhou. Reuben tinha uma raiva resignada na voz.

Ele suspirou e sentou-se no colchão, arrastando-se até a beirada enquanto falava. "Fazendo todas as contas, não foi a merda do HIV, foi você, sempre querendo mais, querendo algo que você sabia, sabia que eu nunca quereria também." Os ossos saltavam contra a pele sardenta das costas dele. Havia algumas marcas de dedos, mas nenhum arranhão. "E sexo e amizade não era o suficiente, você queria um namorado, e depois queria um marido, e escolheu exatamente o cara que não queria nada disso." Ele se levantou e começou a juntar do chão as peças de roupa que lhe pertenciam, a irritação cada vez mais aparente através de seus gestos. "E depois de ficar sentido e ir se esconder do outro lado do Atlântico," o olhar dele finalmente o encontrou, cheio de sarcasmo, "– e eu adoro essa parte: – você me ofendia o tempo inteiro e ainda conseguiu me mandar embora duas vezes. E depois da última, olha só onde eu vim parar outra vez." Terminou a última frase com os braços abertos, indicando a situação. "É sua culpa" o indicador da mão destra se ergueu em sua direção "que nada mais satisfaz, e tudo me cansa, e nada tem propósito. A falta que sinto de você é de quando trepávamos como amigos."

Quis corrigir-lhe. Apontar-lhe todos os detalhes que ele omitira ou deturpara, mas estava cansado demais daquilo. Ademais, ainda duvidava que ele realmente acreditasse no que dizia. Repetiu a mesma coisa que lhe dissera da última vez. "Eu fui embora exatamente porque não sabia mais simplesmente ser seu amigo."

Reuben riu. "Você não sabia mais ficar sozinho."

Ele só estava tentando feri-lo. Pensou em revidar, mas sabia que nada que saísse de sua boca naquele momento o atingiria. Deixou que a única imagem que ocupava sua mente escapar pelos lábios. "A julgar pelos três caras no seu apartamento, nem você."

Ele pareceu surpreso, por um instante. Ou talvez incrédulo fosse uma palavra melhor – incrédulo de que o escocês ainda se prendesse àquilo. George viu uma resposta se formar e os lábios dele se partirem para proferi-la, já quase ouvia a zombaria, mas ela não veio; ele a guardou para si mesmo e riu sozinho, apertou as roupas contra o corpo e murmurou que precisava de um banho.

Devia ter ido. Devia ir.

Levantou-se vestiu as roupas uma a uma, à medida que as apanhava. Reuben deixara as peças caídas no meio da sala e enchia um copo com a água da torneira na cozinha. A própria mão destra segurou a alça da bolsa de viagem e a levou ate o ombro. "Eu sinto muito que você tenha perdido o seu voo." Até onde sabia, estava sendo sincero.

O copo bateu com força na pia. "Isso. Me deixa e me culpa por tudo de novo."

"Eu nunca te culpei por nada, Reuben." Deu alguns passos em direção a porta, mas parou quando ele o fitou. Esperou alguma resposta, alguma objeção, outro riso de escárnio, mas nada veio. "Você me deu chances e eu as aceitei." Sua mão doía pela força com que apertava a tira de nylon. O ruivo somente o encarava, e não sabia se ele esperava que dissesse alguma coisa ou que fosse embora – cumpriria o último, de qualquer forma.

A porta já estava aberta, e sabia que, se a atravessasse agora, não tornaria a falar com ele outra vez. Ele ainda o fitava; o peito esquelético subia e descia conforme a respiração, e a mandíbula parecia travada e fazia suas bochechas parecerem mais fundas do que realmente estavam. Por um instante, quase não o reconheceu.

"Se cuida" murmurou, sem medo de fitá-lo nos olhos. "Por favor."

A voz dele atravessou a madeira depois que já soltara o trinco e dera dois passos no corredor. Não distinguiu as palavras e impediu seus pés de darem meia volta, guiou-os na direção das escadas. Precisava de uma dose ou duas de uísque e um maço de cigarros.

 

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