radostia: (Default)
Anna H. ([personal profile] radostia) wrote2013-03-16 11:54 pm

Relapso

O barulho vibratório do celular contra o chão de madeira o fez despertar. A consciência demorou a vir, enevoada, trazida de longe pelo som repetitivo, irritante. As mãos tatearam cegas pelo chão até encontrarem o aparelho, apertaram os botões que encontraram até que uma voz fraca soasse através do auto-falante. A voz distante de George perguntava onde estava. Tentou respondê-lo, mas percebeu que não sabia. Tentou dizer-lhe isso, mas percebeu que não conseguia encontrar a própria voz.

George falou mais alto, soava preocupado. Reuben, onde você tá?

Esfregou o rosto com as mãos e olhou ao redor. Outras duas pessoas dormiam no chão, Amanda e Josh.

Reuben, tá me ouvindo? Me diz onde você tá.

“No Connor”, conseguiu dizer, a voz rouca, meio embargada. Limpou a garganta e trouxe o telefone para mais perto. “Eu tou no Connor.”

Me espera, eu vou te pegar.

E a ligação foi cortada.

Com algum esforço, conseguiu sentar-se. Já era tarde da manhã. Connor já não deveria mais estar ali; Josh e Amanda não pareciam se incomodar com a claridade.

Além do torpor, sentia-se diferente.

Conhecia tão bem aquela sensação que sequer precisou olhar o próprio braço para saber.

Levantou-se.

Seus passos fracos o levaram até o quarto do amigo. As mãos ansiosas vasculharam armários e gavetas, mochilas, sapatos, almofadas, cada fresta onde já escondera as próprias seringas, sem encontrar nada.

Tremia.

Precisava de mais uma dose, só mais uma, antes que George chegasse.

Seguiu até a sala. Olhou dentro de livros, entre almofadas de sofá, procurou tábuas soltas no chão, mas não havia nada, e a sua ansiedade apenas crescia. Quando chegou até a cozinha, já não retornava os objetos aos seus lugares, deixava-os cair, arremessava-os como se fossem culpados por aquele desespero que o consumia.

Não havia nada na casa, Connor não era estúpido.

As batidas na porta fizeram o seu estômago afundar. A culpa, a vergonha. O desespero.

Reuben?

Engoliu em seco.

Ele bateu outra vez.

Reuben, abre.

Suas mãos trêmulas se tornaram punhos. Deu passos temerosos em direção à porta, tomando um caminho que o permitisse pegar a jaqueta. Puxou a manga da camisa até os pulsos, sabendo que não faria muita diferença. Bastaria que George o olhasse para saber. Bastaria que qualquer um o olhasse para saber.

Abre logo, Reuben.

Obedeceu.

Girou a chave e puxou o trinco, sem conseguir olhar o homem no rosto.
George não disse nada. Puxou-o para fora da casa com um braço ao redor dos seus ombros, a outra mão alcançou a jaqueta do amigo. “Pra casa?”, perguntou. O candor que havia na voz dele parecia esmagar o seu coração com culpa e vergonha. Só conseguia pensar que se pudesse ter ficado mais cinco minutos, talvez houvesse encontrado algo.

A culpa.


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