radostia: (les botas)
Anna H. ([personal profile] radostia) wrote2013-05-01 10:42 pm

extra-ordinário

Fazia tanto tempo que ninguém vinha à minha casa que eu já nem lembrava quanto tempo. Fazia tempo também que eu não ia à casa de alguém ou ao menos saía com outra pessoa. Sou eu, o gato, a cadela e o canário. Adônis, Mirna e Freddie. Provavelmente gasto mais com a comida dos três que com a minha. Adônis é um fresco que só come daquelas rações caras com gosto de salmão e ervas finas que não se vendem nas mesmas sacas de não sei quantos quilos que compro para Mirna. É um fresco que quer comida com molhinho e depois quer que lhe limpem a cara enjoada. Já a cadela é uma vira-lata misturada de não sei o quê que não tem mimimi nenhum, come a própria ração, se o Adônis bobear, come a dele, e, se tiver como alcançar a gaiola do Freddie, surrupia as rodelas de banana e os pedaços de alface que prendo na grade; depois disso ainda quer comer o rolo de papel higiênico e mascar o controle remoto da TV e o pé da cama. Não dá para comer no sofá sem trancá-la antes em algum lugar.

Não gasto tanto com a minha própria comida porque não sei cozinhar. Enrolo um macarrão com molho de tomate, uma omelete caprichada, pão chapado com manteiga na frigideira; comida congelada tipo hambúrguer de peru e de vez em quando uma pizza pelo telefone; suco de laranja encaixado, leite desnatado, café em pó, umas caixas de chá perdidas pelos armários. Vez ou outra bate uma vontade de chocolate ou de sorvete, de um chá gelado decente – porque ter caixas de chá na despensa nunca foi sinônimo de acertar preparar chá –, só preciso correr no comércio do outro quarteirão. Se eu soubesse cozinhar, a coisa seria diferente. Ou então se eu tivesse o ânimo de sair e comer fora em algum lugar bom.

A última vez que saí com alguém deve ter sido há um mês ou dois, talvez com Marina e Johnson. Bar, acho. Fiquei de ligar-lhes no fim de semana seguinte e esqueci. Não me procuraram e deixei por isso mesmo; não sinto realmente falta de nenhum deles – Marina sempre caía no assunto da mãe doente, Johnson no do orientador do mestrado, Shannon sempre estava num processo criativo sem precedentes, Yvonne nunca tinha dinheiro para nada, Burke estava excitadíssimo com a data do casamento que se aproximava, e assim por diante. Não imagino que tenham começado a ser interessantes justo nos fins de semana que não saí com eles.

Não sinto falta, realmente; assim ganho mais tempo para ler e dinheiro para comprar outros livros, vejo mais filmes na televisão e brinco mais com a cachorra, irrito mais o gato, escuto mais o canário. Às vezes, até me aventuro a tentar alguma coisa na cozinha enquanto vejo o canal culinário. Nem sequer lembro como acabei por me amigar a eles. Com certeza não eram da faculdade, já que saí de lá sem nem ao menos avisar os grupos de estudo. Não tinham também o perfil das pessoas com quem trabalhei na fábrica, nem eu travava qualquer tipo de conversa com os fregueses da loja – pelo menos não do tipo que os leva a te convidarem para uma noite no bar ou na casa deles. Devo tê-los conhecido no bar mesmo, em uma noite que tomei alguns drinques a além da conta o suficiente para me introduzir em um grupo tão grande. Tínhamos uma conexão forte, apesar de superficial, mas não consigo lembrar como chegamos a isso ou o que nos aproximava. Também não recordo quando começaram a me desinteressar. As coisas acontecem e eu nunca me dou conta a tempo de vê-las acontecer.

Deve ser por isso que não mudei nada. Sou a mesma pessoa de dez anos atrás – a mesma desde que me entendo por gente (e criança não é gente). Perco os detalhes do meu próprio comportamento que precisaria analisar para alcançar qualquer mudança. Talvez o problema seja este: eu não quero mudar. Acho que nunca quis. É confortável aqui, quieto, ordenado não de forma organizada, mas funciona bem o suficiente para sobreviver. Sem grandes esforços, sem perdas significativas.

Trabalho de segunda à sexta das treze horas às vinte; aos sábados das sete às treze, em uma dessas lojas de chocolates de luxo. Quando quero ganhar um pouco mais, me voluntario para os domingos, ou para cobrir a licença ou as férias de alguma outra menina. Não me importava de trabalhar dobrado vez ou outra, desde que não acontecesse com tanta frequência. Quando o aluguel apertava, ou meus interesses cresciam sobre algum objeto de consumo, fazia horas extras durante a manhã, trabalhava o domingo inteiro. Adônis não demonstrava sentir minha falta, Mirna somente ganhava mais tempo para comer os panos de chão. Somente Freddie parecia se animar com meu retorno nesses dias prolongados. Fazia quase um ano que não havia mais ninguém me esperando voltar para casa. Ultimamente, minha única companhia na cama era Adônis, que deitava sobre uma toalha que eu estendia sobre o lado vazio do colchão.

Durante a semana, pegava quase sempre o mesmo ônibus – o das vinte e trinta e cinco. Exceto em dias especiais, era um horário mais calmo: se não havia lugares de sobra, ninguém precisava se apertar para caber entre as duas fileiras de assentos. Três paradas depois da minha, quase sempre ela também tomava a linha. Ela sentava nas cadeiras mais à frente, eu preferia as mais atrás, e tentava não encará-la por simples senso de educação. Olhava para fora da janela, revisava a lista de compras, tentava lembrar o quanto ainda restava da ração do gato e da cachorra, mas sempre acabava reparando no cabelo escuro e trançado, preso num coque baixo, no jeito alinhado como a cabeça dela se conectava com o pescoço, nas pernas grossas escondidas debaixo de uma calça jeans. Hoje ela usava uma skinny que sumia dentro das galochas pretas. Eu sempre descia antes dela.

Chovia como um louco naquele mês, e não havia previsão de neve nos jornais. Mirna estava ficando mais desvairada que o comum por não poder sair de casa, e Freddie passava os dias com as penas eriçadas, parecendo uma bolinha de tênis. Adônis não mudava, e só eu ficava empolgada com o frio que fazia no apartamento, mesmo que emburrada por nunca acordar, olhar pela janela e ver o parque coberto de branco.

Apesar do empecilho da chuva, o movimento na loja ia bem, e meu rosto doía ao final dos dias de tanto forçar sorrisos. Eu concordava com a maioria dos clientes quando diziam que chocolate era um presente quase infalível para aqueles parentes ou conhecidos que deveriam ser presenteados sem falta, mas que você não conhece o suficiente para saber do que gostam. Eu, particularmente, prefiro ganhar um snickers a algo caro que não combine comigo ou que eu precise ir trocar na loja. A única margem de erro na tática é o conhecido ser tão desconhecido a ponto de você não saber que ele é alérgico a chocolate, ou ainda pior: ele não gosta de chocolate.

“Você quer jantar comigo?”, foi a primeira coisa que ela me disse. Eu estava distraída com as gotas de chuva que escorriam pela janela do ônibus e não dei atenção a quem sentara na cadeira ao meu lado até ouvi-la falar. Na verdade, nem ao menos notei que se dirigia a mim até não ouvir a continuação da conversa. E quando virei o rosto, também quase não a reconheci. Estava muito próxima e os cabelos estavam soltos, caindo ao redor do rosto, marcados como se houvessem sido presos numa trança. Usava um pouco de maquiagem, quase nada. Eu esquecera o que ela havia perguntado.

“Você quer jantar comigo?”, ela repetiu. O pescoço estava escondido atrás de um cachecol cinza, e ela usava uma jaqueta bonita, escura, de cujos punhos saíam os de um suéter cor de rosa.

“Perdoe...?”, murmurei, sinceramente confusa. Ela sorriu com o canto do lábio.

“Já que você não me pede por um encontro, achei que eu deveria tentar. Ou é isso, ou você vem fantasiando me assassinar.”

“Eu não saio em encontros”, foi tudo o que consegui responder.

Ela fez uma careta meio engraçada. “Então é mesmo a segunda opção?”

“Talvez seja, é melhor tomar cuidado.”

“Você quer ou não jantar comigo?”, ela insistiu, sem perder o bom humor, “O restaurante é bom e eu tenho reservas.”

Mordi a boca. Não queria aceitar. Estava em roupas simples demais, o cabelo desajeitado pela chuva que pegara andando até o ponto sem o guarda-chuva, e não tinha ideia de como aquilo teria alguma chance de dar certo. Eu era ciente de que achar os outros desinteressantes não fazia de mim alguém interessante. Ela se cansaria de mim antes da cestinha de pães chegar à mesa.

“Você tem uma parada para decidir”, ela disse, olhando o letreiro digital no teto do ônibus. “Vai ser divertido, eu prometo.”

Pensei em dar-lhe a desculpa de que tinha três bichos em casa me esperando e a mentira de que tinha coisas demais para fazer, mas a minha boca acabou aceitando.

Ela abriu um guarda-chuva verde quando descemos e ficou em silêncio enquanto caminhávamos. Se esperava que eu falasse alguma coisa, havia se dado mal em me convencer a sair com ela. Andamos três quarteirões até paramos em frente a um diner. Não eram vinte e uma horas quando entramos. Ela cumprimentou de longe as moças atrás do balcão e uma delas veio retirar a placa de indisponível de cima de uma das mesas próximas à janela.

Ela jogou a mochila, a jaqueta e o cachecol no estofado antes de sentar. Imitei-a e sorri desconfortavelmente quando ela me encarou, também sorrindo.

“Eu já sei o que vou pedir”, disse, puxando as mangas do suéter para acima dos cotovelos, “dá uma olhada no menu. Eu juro que tudo é muito bom.” Ela tinha os dentes da frente um pouco tortos e um sorriso grande que mostrava os caninos pontudos.

Apanhei um dos papéis plastificados que a garçonete deixara sobre a mesa e corri os olhos. No verso, algo capturou minha atenção. “Esse linguini com camarão é bom?”

Ela desviou o rosto da janela e me olhou. “Só peça sem pimenta. De verdade.”

A garota ruiva que nos recebeu se aproximou com um bloquinho na mão e anotou o meu pedido primeiro. Ela pediu uma quiche de queijo e espinafre e uma porção de batatas fritas enquanto esperávamos. Quanto mais à vontade ela se sentia, mais desconfortável eu ficava. Ela olhou outra vez pela janela e me encarou de volta. Parecia ansiosa com alguma coisa. Retirou do bolso o telefone, mexeu nele um pouco e me entregou, dizendo que lesse. Uma Kathy pedia desculpas por não poder encontrá-la à noite, esquecera-se de já ter marcado com uma Laine, supostamente estúpida.

“Quem é Laine?”, perguntei, devolvendo-lhe o aparelho. Ela sorriu com sarcasmo, dizendo que era ela mesma. Laine era um nome incomum. “E quem é Kathy?”

“Daqui a pouco, vai ser a minha ex.” Ela olhou outra vez pela janela. “Ela deve ter errado o remetente.”

No primeiro encontro que eu tinha em anos, se é que poderia chamar aquilo de encontro, eu havia ido parar no meio de uma briga de casal.

“O nosso caso é o seguinte: ela vai aparecer aqui e eu vou fazer cara de quem tinha esquecido que tinha marcado com ela aqui. Você vai fazer cara de que sabe quem ela é e de que não ficou nada feliz com a aparição dela. Ela vai começar a fazer um escândalo e eu vou dizer pra você me esperar na sua casa.”

A segunda garçonete, a mais baixinha, com jeito meio hispânico, trouxe nossas batatas.

“Isso é absolutamente estúpido”, eu disse, mas não me levantei. “Por que não simplesmente sentam e conversam?”

“Eu cansei de sentar e conversar com ela.” Notei que as veias nas costas da mão dela eram mais saltadas do que eu esperava quando ela levou duas batatinhas até a boca. “Quero ver se, falando na língua dela, ela compreende.” Ela limpou o sal dos dedos com os lábios e a língua. “Desculpa, eu nem perguntei o seu nome.”

Eu me perdi um pouco ali, com aquela coisa dos dedos e os lábios e tal. Mas era verdade. Eu havia aceitado o convite de uma completa estranha sem nem ao menos nos apresentarmos. Talvez ela fosse a assassina da história.

“Helen.”

Ela sorriu outra vez com o canto da boca. “É um nome bonito. E combina com você.”

Como ela me deixava desconfortável. “Você ainda nem terminou com ela e já tá dando em cima de mim?”

“Ela já tá comendo outra; acho que isso me dá o direito.” Ela olhou meus braços cruzados, intrigada. “São deliciosas, mesmo. Pode comer”, e limpou outra vez os dedos na boca. “E você acha que eu só comecei a dar em cima de você agora?”

Bufei um pouco. “Não”, disse, pescando uma das batatas da cestinha, “só achei o momento oportuno para apontar.”

Ela se inclinou para frente, mostrando mais os caninos. “Não está gostando?”

Peguei outras duas batatinhas e falei antes de mordê-las. “Menos do que esperava.” Não estava mentindo. Meu estômago estava começando a embrulhar agora que sabia que estava metendo a colher em briga de casal. Meu impulso de recusar o convite estava certo, e agora Adônis e Mirna estavam com fome porque eu resolvera me meter em problema.

“O que você faz?”

Olhei pela janela. Nenhum sinal da namorada. “Sou vendedora.” Mordi outra batata. “Loja de chocolates. E você?”

Ela passou os dedos pelos cabelos, ajeitando-os. “Ensino balé.” Fazia sentido. Ela tinha toda a postura, andava com aquele coque. Realmente, havia uma escola de dança algumas quadras à frente da loja. “Nunca deu certo entrar numa companhia, e ‘quem não sabe fazer ensina’, né?”

“Se quem ensinasse não soubesse fazer, ninguém mais sabia. Acho que tá mais para ‘quem não sabe ensinar faz’.”

Ela riu. “Eu gostaria de ser mesmo assim tão boa.”

Olhei ao redor, sem ter o que comentar. Cinco ou sete outras pessoas jantavam no diner, algumas em duplas, conversando baixo – a maior parte do ruído era o som de talheres, alguns barulhos que escapavam da cozinha e a música ambiente de duas ou três décadas atrás.

“Pra ficar mais realista, você precisa ficar menos travada. Quer uma cerveja?”

Encarei-a outra vez. Ela prendera parte do cabelo atrás da orelha esquerda.

“Não bebo cerveja.”

“Também não sai em encontros, mas aqui está você.”

“Isso não é um encontro, é uma emboscada.”

Ela sorriu mais abertamente. “Se é uma emboscada, então você não tem nenhuma escolha senão acatar com o que eu disser”, e pediu as bebidas em voz alta para a ruiva, que continuava atrás do balcão. Quando a garota trouxe os dois copos de cerveja avisou que nossos pratos viriam em cinco minutos, e Laine agradeceu. Os lábios dela ficaram mais vermelhos depois de alguns goles. “Você está me dando um trabalho desgraçado, sabia? Parece minhas alunas birrentas.”

“Você dá aula para crianças?”, Sem muita vontade, bebi um pouco. Nunca fui muito de beber fora de bares, muito menos cerveja, mas aquela não era das piores, não descia tão mal.

Ela levou outra batata à boca. “Pestes.”

Eu ia perguntar como ela lidava com crianças todos os dias, mas o som da porta sendo aberta me interrompeu. A mulher de gorro que entrara olhou ao redor e parou ao nos encontrar.

“Laine?”

Aquilo não estava acontecendo de verdade, estava?

Laine se virou na direção da voz, parecendo surpresa.

“Quem é essa, Laine?”

Ela era bonita. Muito mais bonita que Laine.

Ela se levantou, olhou para mim e depois para ela. “Kathy, eu posso explicar, por favor...”

“Quem é essa vagabunda?”

Opa. Pera lá.

Levantei também e apontei o dedo na cara dela, já começando com um olha aqui, mas Laine me afastou a tempo. Me segurou pela cintura e depois pelo rosto, me pedindo para ir para casa. Ela era só um pouco mais alta que eu, e o nariz dela quase encostou no meu. Fico com vergonha só de pensar na cara que devo ter feito.

Saí de lá anestesiada o suficiente para não tentar revidar a segunda vez que a outra me chamou de vadia. O que exatamente acabara de acontecer?

Fora tudo tão rápido que o ticket do ônibus ainda não perdera a validade.

Podia ouvir Freddie cantar antes mesmo de abrir a porta. Mirna enlouqueceu. Correu pelo hall, desceu as escadas e subiu outra vez, correu pelo apartamento, esbarrando nas paredes, e depois foi parar ao lado da vasilha de ração, vazia. Adônis simplesmente desceu de cima da mesa de jantar e veio se esfregar entre minhas pernas depois que Mirna se aquietou. Sempre muito sóbrio, moderado. Joguei a mochila em cima da mesa e o tomei nos braços, dizendo que ele nunca adivinharia o que havia acontecido comigo.

A minha ansiedade no dia seguinte somente surgiu quando subi no ônibus. Precisava confirmar se sonhara ou não. Esperava a cada parada que ela surgisse entre os novos passageiros, mas não a vi em momento algum. Meu coração apertou um pouco quando percebi que meu ponto de descida era o próximo. Olhei o relógio. Se a próxima linha estivesse na hora, não precisaria esperar mais de dois minutos na chuva. Nessa noite, quando Adônis se aninhou em cima do respaldo do sofá, perguntei-lhe se ele lembrava do que lhe havia contado na noite anterior. Pois bem, provavelmente eu havia dormido no ônibus, era tudo bobagem, eu disse, sem realmente acreditar, sem certeza ou esperança nenhuma sobre qualquer hipótese.

O dia seguinte seguiu como o usual. Monótono em casa, agitado na loja, frio e chuvoso de um amanhecer ao outro. Às vezes o tempo dava uma trégua, se acalmava por alguns minutos, e depois retornava, incansável, e nada de neve. Eu precisava me lembrar de comprar um daqueles casacos de chuva caninos.

Recebemos na loja uma edição especial de natal – além das edições especiais padrão, quero dizer. Uma caixa que continha um exemplar de cada uma de nossas melhores e mais populares trufas: amarga, ao leite, rum, caramelo e cereja embebida em conhaque. Namorei as que estavam expostas próximas ao caixa a tarde inteira, pensando que se eu conseguisse não utilizar o chuveiro elétrico, ver menos televisão e não ligar as luzes pela manhã, talvez economizasse na conta de eletricidade o suficiente para comprar uma, mas logo em seguida desistia e pensava que seria mais fácil comprar snickers, M&Ms e fudge. E foi com esse pensamento – de comprar um bom Rocky Road antes de chegar à casa – que subi no ônibus.

Ela subiu algumas paradas depois da usual. Subiu sozinha, avistou-me e sorriu. Bastou para a ansiedade nascer outra vez. O cabelo estava preso no coque. Ela caminhou até mim sem se apoiar em nada e segurou a mesma barra que eu, logo abaixo da minha mão, dizendo oi. Um simples oi. Respondi do mesmo jeito.

“Você tá indo pra casa?”, perguntou, aqueles olhos em cima de mim. Mordi a boca e consenti. “Obrigada por terça-feira.”

Tentei rir. “Até onde eu sei, terça-feira nunca aconteceu.”

“Foi tão ruim assim?”

Não a respondi de imediato. Ela não usava nenhuma maquiagem. Olhei para os meus sapatos e enfiei a mão livre no bolso da jaqueta. “Foi fora do comum, meio que não cabe no meu dia-a-dia.”

Ela fez uma careta. “Sabe, eu ainda tou te devendo aquele jantar”, disse, e depois sorriu de novo.

“Não precisa, mesmo.”

“Por favor. Você nem terminou a cerveja.”

“Me arrependo amargamente disso. Não achei que ia precisar.”

Ela riu e olhou para fora da janela, depois para o letreiro digital. Tinha sinais no pescoço. “Eu vou continuar insistindo”, falou e apertou a minha mão enquanto o ônibus parava. Despediu-se e desceu quando as portas se abriram. Observei-a andar pela calçada, abrindo o guarda-chuva verde enquanto a condução se afastava. Eu havia perdido a minha parada.

Na noite seguinte, recusei o convite outra vez, e não deixei a descida passar. Laine me acompanhou até o apartamento contra a minha vontade, insistindo que deveria me pagar ao menos uma pizza. Expliquei-lhe durante o caminho que minha casa não estava apresentável, e que havia um cão doido, um felino rabugento e um canário simpático, mas ocasionalmente irritante, e que ela realmente não me devia nada. Poderia muito bem ter falado com o guarda-chuva dela ou com a calçada, teria tido o mesmo efeito.

Mirna escondeu-se quando a viu, e Adônis pareceu gostar mais dela do que de mim. Freddie cantou como cantava o tempo inteiro. Enquanto ela tentava fazer amizade com a cadela, corri a recolher as peças de roupa, limpas e sujas, que acabava deixando pela casa durante a manhã e o fim da noite. Quando voltei à cozinha, ela estava sentada numa cadeira com Adônis no colo, segurando o celular contra o ouvido. Perguntou-me que tipo de pizza eu gostava e me chamou de irritante quando murmurei que qualquer uma que ela escolhesse estaria bem. Com aquele incômodo no estômago que ela me causava, eu dificilmente conseguiria comer.

Ela pediu licença e começou a vasculhar a casa. Abriu a geladeira, passeou ao redor da mesa de centro, abriu alguns livros que estavam sobre o televisor (antigo, daqueles Toshiba que pesavam meia tonelada), afofou as almofadas do sofá e depois retornou à mesa. Ao menos o bom senso de não querer entrar no meu quarto ela tinha.

“Olha”, ela começou, coçando o queixo de Adônis. “Desculpa pela Kathy. Não achei que ela ia te chamar daquelas coisas.” Vagabunda e vadia? Abanei o ar, sinalizando que não se importasse. “Desculpe, mesmo.”

Mexi os ombros e levantei para apanhar dois copos e servi-los do suco de laranja encaixado que tinha na geladeira. “Ela te chamava de estúpida. Não fiquei surpresa.”

“Não falava aquilo na minha cara. E você ficou surpresa, sim. Achei mesmo que ia avançar em cima dela.”

Ri. “Foi só a vontade – coragem eu não tinha, não.”

“Eu posso te pedir outra coisa?”

Dava para ver que ela não se sentia bem falando aquilo. Não me olhava nos olhos e falava mais baixo que o normal. Fiquei em silêncio, à espera do pedido.

“Será que eu poderia dormir aqui hoje?”

Era brincadeira.

“Ela vai passar a noite no meu apartamento, juntando as coisas pra ir embora amanhã. Vai pra casa da irmã.”

“Ela morava com você?”

Os lábios dela ficaram presos entre os dentes com tanta força que achei que fosse machucá-los. Não aconteceu, felizmente.

Uma mulher bonita e magoada no meu apartamento me pedindo ajuda. Não sei se foi minha educação ou meu egoísmo que falou mais alto e disse claro que pode.

Comemos a pizza quase em silêncio. Ela perguntou se não havia nada com que pudesse batizar o suco e fez um bico de desapontamento quando lhe disse que não. Eu nunca tinha bebida alcoólica em casa. Depois de terminarmos, Laine insistiu em lavar os copos e em ir deixar a caixa de papelão no depósito de lixo. Nesse meio tempo, troquei todos os lençóis da minha cama por novos, e levei os que estivera usando naquela semana para cobrir o sofá, onde pretendia dormir e assim deixar o quarto para ela, mesmo sob protestos.

“A sua cama é grande, dá pra dividir sem problema.”

Ri e perguntei se ela queria tomar banho ou ao menos ver algo na TV antes de deitar. Ofereci pijamas e ela aceitou o banho, mas dispensou a televisão, alegando estar cansada. Sintonizei em qualquer canal, parando numa apresentação de patinação artística. Ah, a neve que nunca vinha. Só chuva, chuva, chuva batendo contra o vidro da janela. Adônis e Mirna deitaram sob a mesa de centro, juntos; Freddie já tentava adormecer também, a minha bolinha amarela. Aproveitei que o quarto estava vazio para vestir um pijama.

Quando a porta do banheiro se abriu, uma nuvem de vapor a acompanhou. Soltara o cabelo e vestia o pijama de flanela amarelo que eu lhe emprestara. Carregava as próprias roupas, todas dobradas, debaixo do braço, e as deixou em cima da mochila, que ainda estava sobre a terceira cadeira ao redor da mesa. Agradeceu outra vez, sem especificar pelo quê, e eu dispensei o gesto de novo.

Ela ficou em pé ao lado do sofá, esperando alguma coisa. Perguntei-lhe o que era.

“Não vou te deixar dormir no sofá.”

Ela estava começando a me irritar.

“Não vou dormir até você vir deitar na própria cama”, ela disse, parecendo séria, “e eu tou com sono, então é melhor vir logo”, e me deu as costas, entrando no meu quarto. Ouvi a madeira estalar um pouco e depois parar. Mirna e Adônis me encaravam, esperando que eu tomasse alguma decisão. Eu ia ou não ir me deitar com a mulher bonita e magoada na cama?

Desliguei a televisão. Mirna se enrolou para dormir, Adônis continuou me questionando. Vai fazer o quê? Vai fazer o quê, hein? Ela tá te chamando. Eu sei.

Levantei. Provavelmente estava fazendo a escolha errada outra vez.

O cobertor a cobria até o pescoço. Ela virou a cabeça quando fechei a porta do quarto, avisando que era para impedir os animais de subirem na cama. Ela disse que não se importava. Sentei no colchão e estendi um outro cobertor sobre minhas pernas. Não conseguia me sentir confortável. Dentro da minha própria casa, meu canto de exílio, o meu lugar quieto, à parte da confusão externa.

Deitei e puxei o cobertor até o meu próprio pescoço. A água continuava batendo na janela. Olhei para o lado, sem conseguir assimilar aquela alteração. Havia quase um ano desde a última vez que uma mulher simplesmente dormiu naquele lado da cama.

Aquilo não cabia na minha rotina.

Dormi com dificuldade, meio desejando que ela não estivesse ali, meio desejando que me agarrasse e tirasse as nossas roupas.

Laine acordou tão cedo quanto eu, espreguiçou-se, virou-se para mim e sorriu, disse que meu colchão era melhor que o dela. O cabelo estava todo bagunçado, o rosto um pouco inchado. Mordi o lábio, dei-lhe um bom dia sonolento, meio hesitante. Mirna nos deve ter ouvido, porque já estava choramingando ao pé da porta. Laine levantou-se e a deixou entrar e subir na cama.

Ouvi seus passos irem até a cozinha e depois ao banheiro. De lá, voltou ao quarto para deixar o pijama dobrado sobre a cama, murmurando outro agradecimento. Suspirei. Se ela continuasse assim, acabaria sendo expulsa.

Perguntei se queria comer algo e listei o que lembrava ter no armário e na geladeira. Recusou tudo e se desculpou mais uma vez pelo incômodo. Fui mais ríspida do que esperava ao dizer que parasse com aquilo, mas aquilo não pareceu afetá-la. Ela se sentou ao lado de Mirna e coçou-lhe atrás da orelha, e eu não sabia por que ela fazia aquilo comigo.

Eu sentia que deveria me aproximar e beijá-la, livrá-la da roupa e fazê-la ficar. Sem sobrenomes, sem histórias, sem nada, só esquecimento. Eu me sentia horrível como podia não me importar de fazer sexo com uma estranha, mas simplesmente dormir com ela me deixava confusa e desconfortável.

“Eu tenho aula daqui a pouco”, ela murmurou, “é melhor eu ir.”


Ela ainda usava as roupas com que saíra da minha casa. Me encontrou com os olhos e sorriu sem os dentes até me alcançar. Cedi meu assento e ela o tomou sem cerimônia, sem agradecimento, em seguida tirou de dentro do bolso da jaqueta um saquinho de pano, daqueles onde se guardam joias ou bijuterias, e lá guardava os grampos que tirava do coque e, por último, a rede e as ligas de cabelo. Seu sorriso de dentes tortos surgiu ao perceber que eu a observava.

Não pude evitar imaginá-la dentro de um collant, rodopiando na ponta dos pés como se não fosse esforço algum, transformando música em movimento. Minha mão livre se escondeu no bolso do casaco. “Eu queria te ver dançar.”

Laine riu. “Não quer, não. A menos que queira um show de comédia.”

“É sério. Eu quero te ver dançar.”

Ela se calou, sem deixar de me olhar, sem deixar sumir aquele sorriso meio malicioso, meio envergonhado que delatava a corrente de pensamentos que lhe ocorria. Levantou-se. Ela era um pouco, quase nada, mais alta que eu, o nariz quase tocando o meu. “Aparece amanhã na escola. Às vinte, pode ser?”

Acenei com a cabeça e me aproximei dois passos da porta de saída. Repeti o horário para que ela me confirmasse e desci com um sorriso estúpido me rasgando a boca.

Às sete e cinquenta e oito, eu estava parada em frente à porta da escola, protegida da chuva pelo toldo vermelho, mas segurava a caixa de chocolates que comprara alguns minutos atrás debaixo da jaqueta impermeável por precaução. A ansiedade queimava em meu peito, e por isso já me arrependera do pedido. Não sabia o que esperar, não havia meio de me preparar. A única coisa que me impedia de dar meia volta, devolver os chocolates e ir para casa era saber que terminaria por esbarrar nela qualquer dia e que ela sabia onde eu morava.

Oito horas. Dei um passo em direção à porta, mas hesitei, a mão sobre a maçaneta. Aquilo terminaria mal, era quase certo. Quase. Talvez algo bom surgisse ali, talvez as minhas expectativas não se confirmassem, uma vez na vida, talvez entrar fosse a escolha certa daquela vez. Não podia ter certeza, só tinha um medo fodido de estar fazendo a escolha errada outra vez. Respirei fundo e entrei. Dirigi-me à porta no fim do corredor, de onde parecia vir a única fonte de luz.

Ela estava sentada no chão, as costas apoiadas no espelho que cobria toda a parede, os joelhos dobrados no peito, e sorriu ao me ver. Cruzou as pernas dobradas, inclinou-se um pouco para frente e de repente estava em pé, sem ter se apoiado em qualquer lugar. Disse que não me esperava tão pontualmente e veio me mostrar onde guardar o casaco e os sapatos molhados. Sorriu ao ver a caixa de chocolates na minha mão e eu me expliquei, dizendo que era pelo favor de me deixar vê-la dançar.

Laine me conduziu até o centro de uma das paredes que não era revestida de espelho e me fez sentar ao lado do aparelho de som. “Não ria,” disse, tentando morder os lábios para esconder o sorriso. Apertou o botão de play no aparelho e se afastou para o centro da sala, a sapatilha fazendo tec, tec, tec enquanto ela andava, sempre pondo no chão primeiro as pontas dos pés. Estava vestida de um jeito simples, imagino que do jeito que qualquer aluna de ballet se vestiria – o collant preto de alças, meia-calça cor de rosa, polainas e sapatilha da mesma cor. Aquilo me fascinava, por qualquer motivo, talvez por eu nunca ter me forçado a imaginá-la de fato como dançarina.

Eu não poderia, de maneira alguma, descrevê-la de um modo fiel. Havia uma sintonia entre ela, o corpo e a música que simplesmente me hipnotizou. Não vou dizer que Laine era uma exímia bailarina que deveria estar em uma dessas companhias, mas ela se entregava ao personagem tão intensamente que em alguns momentos me senti próxima ao choro. Eu não estava prestando atenção ao quão alto ela conseguia saltar, ou quantas voltas numa única pirueta ela conseguia sustentar, mas no todo, naquele tudo que ela era durante a música. Ela era um ser completo e completamente à parte do mundo pequeno em que eu me encontrava, e eu estava ali para testemunhar.

Ela fez uma careta quando a música terminou. Não sei se bati palmas, mas tive vontade. Ela veio se sentar ao meu lado, a pele brilhosa de suor, o peito arfante, e perguntou o que eu havia achado. “Muito bom”, foi tudo o que consegui dizer.

“Esse é o nosso jantar?”, perguntou e puxou a caixa de chocolates para o colo, já desfazendo o laço. Não respondi, meio envergonhada de não ter pensado em algum lugar aonde levá-la. Ela abriu primeiro a de caramelo e mordeu até a metade, e seu rosto se desmanchou numa expressão de prazer. “Meu Deus”, disse, os dedos cobrindo os lábios, “se eu trabalhasse lá, já teria assaltado a loja.”

Ri, dizendo-lhe que aquele me era um pensamento recorrente. Estiquei o braço e roubei de seus dedos a meia trufa. Tentei não olhar quando ela limpou o chocolate com a boca, mas não consegui. Laine sorriu, meio sem jeito, meio maliciosa, mostrando os caninos pontudos, e puxou a minha mão até seu rosto. Me olhava nos olhos quando colocou o chocolate na boca e com ele as pontas dos meus dedos. Se tentei recolher o braço, ela me segurou; mas acho que paralisei com a eletricidade que me percorreu, e isso fez o sorriso dela esticar.

Os dedos se entrelaçaram aos meus e os guiaram até tocarem sua perna, ordenando sem palavras que deslizassem ao longo de sua extensão, trazendo-a para o meu colo, e eu obedeci. O rosto dela não se afastou, não se aproximou, e eu sentia seus olhos indo de minha face para as minhas mãos e delas de volta. Retirei-lhe a primeira polaina e, com cuidado, encontrei o nó que prendia a sapatilha ao seu tornozelo. Desatei-o e desfiz cada uma das voltas da fita até poder descalçá-la de seu pé. O cetim cor de rosa da sapatilha estava gasto, e chegava a rasgar em alguns pontos.

Levantei o olhar para encontrar o dela enquanto repousava sua perna no chão e buscava a outra com os dedos. Dessa vez, repeti o processo sem prestar atenção nas mãos, sem achar força ou motivo para desviar dela. Depois, com a respiração quente e calma dela batendo contra o meu rosto, desmanchei seu coque. Os grampos, um a um, a rede e a primeira liga de cabelo guardei na tampa da caixa de chocolates; desfiz o trançado e depois fiz correr pelo rabo de cavalo o elástico que o prendia. Libertos, os fios se espalharam por suas costas e caíram sobre os ombros, terminando antes de alcançarem a altura dos seios.

Laine cruzou as pernas dobradas e levantou-se daquele jeito impossível sem as mãos, e o meu rosto acompanhou o movimento. Ela fez as alças finas do collant escorregarem pelos ombros para depois passar cada um dos braços por elas; e então passou a despir o tronco, os polegares a arrastarem o tecido no qual se haviam prendido, e embora sua silhueta já me houvesse sido entregue pela roupa justa, a exposição da pele, daquele modo tão vagaroso e sem pretensões, sob aquele olhar tão nu, me atingiu como calor.

Ajoelhei-me à sua frente e enrosquei meus dedos nos dela. Laine sorriu. Era como se me desafiasse a terminar o que ela havia começado.



Não saí de casa no domingo – raramente o fazia. Tomei um banho, vesti roupas quentes e sentei no sofá com Adônis. De desvairada, Mirna estava começando a ficar deprimida; encostava-se em em qualquer lugar apertado e abaixava as orelhas, me olhava com aquela cara de bicho pidão como se eu pudesse fazer a chuva parar de cair.

Eu geralmente limpava a casa no domingo, tanto porque era o meu dia livre quanto porque eu me sentia melhor começando a semana com o apartamento limpo, mas naquele domingo em particular preferi ficar no sofá com o gato. Achei uma caixa de fudge e uma lata de batatas chips, e fiz daquilo minha refeição do dia enquanto alternava entre Oliver Twist e a televisão.

Dormi mais cedo do que esperava e isso fez com que eu levantasse mais cedo. Acordei com o som de trovões. Tirei Mirna de cima da minha barriga e lavei logo o rosto, determinada a aproveitar o horário para não precisar me apressar na faxina. Varri, estiquei lençóis, espanei móveis, acumulei mais peças de roupa suja para o dia da lavanderia, lavei um resto de louça que estava na pia e limpei o banheiro. Deixei para fazer a lista de compras e trocar o jornal da gaiola e a areia da caixinha quando voltasse da loja.

À medida que o Natal se aproximava, as tardes ficavam mais e mais movimentadas. Chocolates para a tia, a prima, a madrasta, a avó que você só vê uma vez ao ano, a professora do seu filho capeta, a vizinha cujo nome você nem lembra, aquela família amiga com quem você não quer gastar muito. Todas aquelas relações superficiais indo direto para a minha comissão.

Eu não queria reencontrar Laine. Não saberia o que dizer, não saberia como agir. Deveria pedir desculpas? Não era como se eu a houvesse forçado a dormir comigo. Nem como se houvesse sido ruim – sem querer me gabar, mas muito pelo contrário.

Ela não subiu no ônibus na quarta-feira, e em vez de alívio, senti um pouco de decepção. Acho que queria ver o rosto dela ao me encontrar.

Naquela noite, tive de trancar Mirna no banheiro para poder comer meu panini de padaria sem ter um nariz de cachorro no meio. Enquanto ela estava presa, acho que vi Adônis sorrir. Limpei a gaiola de Freddie, troquei a areia da caixinha e fiz a lista de compras para o dia seguinte.

Dia seguinte. Arrumar a cama, colocar o lixo para fora, lavar a louça, deixar um bilhete colado à geladeira para não me esquecer de ir à lavanderia na manhã seguinte. Mais chuva, portanto casaco e botas impermeáveis. Loja agitada, rosto cansado de forçar sorrisos, prateleiras precisando ser constantemente reorganizadas. E nada de Laine. Considerei, por um breve instante, descer e procurá-la na escola de dança, mas me lembrei de que ainda precisava fazer compras, e deixei passar.

Outra vez, comprei o jantar na padaria. Comi o wrap de frango e cenoura com Mirna presa entre as pernas enquanto via a final do torneio de patinação artística pensando que precisava parar de gastar tanto. Adônis estava espreguiçado sobre a mesa, usando uma revistinha de palavras cruzadas como colchão e balançando o rabo como se esperasse alguma coisa acontecer. Terminei o wrap, limpei os dedos na boca e soltei Mirna – foi o suficiente para que ela subisse no sofá, no meu colo e pusesse o focinho na minha boca, cheirando o que eu ainda mastigava. Empurrei-a e ela me encarou com aquele jeito de bicho sem pai, indignada por eu lhe negar até o cheiro da refeição. “Vá comer o seu,” disse, ainda sem ter engolido, e Adônis se empolgou mais com o rabo, rindo da cadela. Freddie já estava dormindo.

No próximo dia, ela também não apareceu. Usei o resto da noite para organizar as pilhas de livros e revistas sobre outros lugares diferentes do chão e da mesinha de centro da sala. Algum filme antigo de faroeste estava passando na TV e mantinha Mirna entretida e acordava Freddie com o som dos tiros. Adônis pulou do sofá e saiu em direção ao meu quarto, abanando a cauda como se essa nossa vida plebeia ofendesse a sua realeza.

Nada nunca realmente acontecia.


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