radostia: (le cabelo ao vento)
Anna H. ([personal profile] radostia) wrote2013-05-01 10:46 pm

batatas ou porra

Já era quase o pôr do sol, e a mancha não saía. Seus dedos estavam enrugados e machucados, e o suor molhava as costas e o peito da camisa que usava. Respirava fundo, mordia o palito de dentes, estalava a língua e deixava fugir o ar, e continuava a esfregar o tecido contra a tábua. Não comia nada desde o amanhecer.

Passos moles, preguiçosos, soaram próximos à porta e vieram fazendo ranger o assoalho velho até próximo de onde estava. Tentou ignorar o sorriso de desdém que adivinhava se formar naquele rosto mais novo, mordendo o palito e esfregando a camisa com mais força. A maldita mancha. Estava mais clara, mas não sumia.

"Não devia fazer trabalho de mulher se não gosta de ser chamado de uma."

O salto da bota bateu no chão com uma violência resignada. "Não existe trabalho de mulher, Antônio", disse, e respirou fundo. "O que há é homens vis."

O adolescente cruzou os braços e apoiou-se com o ombro contra a parede. "Tu lava, cozinha, costura, limpa e geme pelo meu pau. Parece mulher pra mim."

As mãos avermelhadas pararam.

"Qualquer mulher é mais homem que qualquer homem. Vocês acham que comandam homens, fortunas e países, mas não lavam as próprias ceroulas." Mais água ensaboada foi jogada sobre o tecido. "Eu tenho mãos, sabão e roupa suja. Se quero roupa limpa, nem teu Deus me impede."

"Eu tou com fome."

"Ferve água e joga umas batatas dentro. Vou demorar aqui."

"Batatas, Tomáz?", o jovem riu, cheio de sarcasmo, "Eu tenho cara de quem janta batata cozida?"

Um suspiro pesado, raivoso, escapou pelos lábios feridos do mais velho. "Tem cara de quem não paga o que me deve." O rosto finalmente se levantou para encarar o outro e, assim, calá-lo. O rosto duro, queimado e sujo do homem perigoso que era e que o berço de Antônio subestimava. Rosto sujo do mesmo sangue que as mãos tentavam com tanto afinco remover da roupa.

"Tu me custa. Tu me custa um bocado, e o dinheiro que tu me promete não vem. Nem vai vir, porque todo mundo na cidade sabe quem tu é e com quem tu deita." A mão maltratada apontou o indicador na direção daquele rosto subitamente posto no devido lugar. "E tu sabe que só tem lugar aqui porque se te deixasse ser morto na rua, eu deveria estar longe daqui antes de ter a ideia."

Ambos permaneceram imóveis, sustentados pela severidade do tom de Tomáz, até que outro suspiro atravessou aqueles lábios ao que ele retornava sua atenção para a mancha. "Então você escolhe: ou batatas, ou porra."

Alguns segundos se arrastaram antes do desdém rasgar outro sorriso na boca e nas sobrancelhas de Antônio. "Não”, o garoto começou, desencostando-se da parede para cobrir os poucos passos que o separavam do outro homem. O braço delicado perpassou a cintura grossa, e os lábios avermelhados se aproximaram da orelha escura. “Quem escolhe é tu: ou cuida direito de mim, ou meu tio te desmembra todo." Um sorriso cortou a sua boca, e ele se afastou em passadas preguiçosas, satisfeito com a irritação que crispava os lábios de Tomáz.

O sangue não saía da camisa, e seus dedos feridos avermelhavam a espuma.

Cuspiu o palito e jogou a roupa no balde de água limpa, onde limpou o sabão das mãos. Entrou com passos duros.

Na cozinha, Antônio colocava as toras de madeira no fogão, segurando-as com as pontas dos dedos e arremessando-as desajeitadamente. O homem o afastou com pouca delicadeza e jogou para dentro da fornalha uma boa quantidade em um ou dois movimentos, e logo em seguida acendeu o fogo. Pegou qualquer panela funda, preencheu-a com água até onde achou necessário e a colocou sobre a boca do fogo.

E o pequeno herdeiro deserdado se sorria do seu jeito bruto, via enorme graça em lidar com aquele tipo plebeu. “Você aí se gaba, achando que é homem, mas no fundo morre de medo da minha família.”

Tomáz riu, sentando-se à mesa com as botas cruzadas sobre ela – “Eu trabalho pra quem me pagar bom dinheiro, Antônio. A tua família, a dos Cavalcanti, a lavadeira da Rua do Ferreiro.” Colocou outro palito entre os dentes e esperou pelo som da água a borbulhar, “Só não trabalho de graça.” Não disse mais nada. Em algum momento, Antônio se entediou e se retirou para o quarto.

Ao ferver da panela, derramou dentro dela sete ou oito batatas, lamentando não ter nem uma espiga de milho. Mordia o palito com mais força para resistir à tentação de subtrair algumas notas da bolsa que havia pendurado no cabide ao retornar do mundo. Não lhe cabia aquele dinheiro, e não era ladrão.

Sentou-se outra vez. Apertava a madeira entre os dentes, sem pensar profundamente em nada. O olhar corria pelas paredes velhas, parava alguns instantes sobre a bolsa rica e depois vagava para outro lugar; analisava os cortes nos dedos, o couro das botas, a trilha de formigas que se formava próxima de um dos pés da mesa. Teria de ir à cidade no dia seguinte para entregar o dinheiro e receber pagamento.

Longe, escutou Mariana, e sua cabeça instintivamente se virou em direção à porta. De onde estava, não a podia ver. Sentou-se reto, um pouco inclinado para frente, e ouviu melhor. Mariana e vozes agudas que faziam estardalhaço. Levantou-se. Caminhou com cautela, como se o ruído do assoalho pudesse afugentar o barulho. Além da cerca, crianças cercavam a égua e corriam atrás dela, jogando gravetos. Algumas procuravam pedras pelo chão arenoso.

Não hesitou outro instante. Agarrou a espingarda que ficava encostada próxima à porta e saiu em passos fortes, rápidos, com mandíbula a estraçalhar o palito enquanto seu peito queimava. A arma encontrou sua posição depois que ele galgou o ultimo degrau do alpendre. Mirou e puxou o gatilho, sem deixar de andar. Os saltos de suas botas deixavam vincos no chão e atiravam areia para trás. O tiro errou por pouco, passou sobre a cabeça de um dos meninos, propositalmente.

O som do disparo atraiu a atenção deles, e, ao verem Tomáz se aproximar sem abaixar a espingarda, correram. Jogaram as pedras e os gravetos que ainda tinham nas mãos, como uma última ofensa, um último ato de ousadia, e correram como se suas vidas dependessem daquilo. Sabiam que dependiam.

Atirou outra vez, depois de já ter cruzado a porteira, esperando errar algum cálculo e acertar as costas de um deles. Não. Saíram todos incólumes.

Abaixou a espingarda e desacelerou o passo até parar e esperar que Mariana viesse ao seu encontro. Pendurou a arma no ombro pela alça para abraçá-la e correr as mãos pela pelagem escura e brilhosa em busca de qualquer escoriação. Estava perfeitamente sã. Afagou-lhe as ganachas, beijou-lhe a fronte e se afastou em direção à casa.

Um relincho distante os fez parar e olhar para o lado mais escuro do dia, o lado contrário ao do caminho que levava à cidade. O sol já começara o percurso de se pôr quando finalmente reconheceu quem vinha ao seu encontro, e sentou-se na cerca para esperar. O passo do cavalo era mais rápido do que parecia, e logo conseguiu distinguir o rosto do viajante. Mudara. O sol de meses... de anos tingira de loiro mechas daquele cabelo sujo e comprido e escurecera a pele do rosto, marcada por teias de cicatrizes, algumas novas, algumas antigas, outras que ele mesmo havia feito. Do alto da montaria, ele sorria com divertimento.

"Água para um peregrino?", ele perguntou, levantando momentaneamente o chapéu como cumprimento.

Tomáz desceu da cerca e segurou os cabrestos dos animais para conduzi-los até o cocho. Os passos agora eram ritmados, mais leves. O viajante desmontou do cavalo e lhe afagou o pescoço grosso, forte, enquanto ele bebia os primeiros goles. Não o desencilhou nem o prendeu à casa, e Tomáz também deixou livre a égua, que já começa a se engraçar pelo novo companheiro. Ainda eram potros quando os haviam separado.

Os dois homens se afastaram e adentraram a casa sem trocarem outra palavra. O recém-chegado pendurou o chapéu e o poncho onde encontrara os do anfitrião. Depois sentou-se à mesa, onde foi servido de um copo de leite e um prato com as batatas que o pequeno chibante rejeitara. Ele bebeu pouco do leite, como se racionar líquidos e suportar a sede já lhe fossem mais fáceis que saciar a própria necessidade.

Tomáz o observava com um sorriso que quase ousava aparecer e desbravar aquela boca dura, mas não o fazia. O outro mastigava com lentidão e bebeu um pouco de leite para engolir melhor. Lambeu os lábios e se encostou ao respaldo da cadeira.

“Eu vim te propor uma coisa.” Ele se remexeu um pouco no assento e coçou a barba. “O mundo é muito vasto, Tomáz. César e eu andamos muito, vimos muito, e ainda há muito mais para ver. Em todas as direções. Há, Tomáz, ao sul, uma horda de mercenários liderados pela mulher mais extraordinária. Ao leste, há uma cidade com estalagem livre, com boa cama, boa comida, feno e água. Livre de custo. E se formos a leste o suficiente, chegaremos ao mar.” Ele acendeu o fumo que estivera enrolando e o tragou uma vez. “Quero que venha comigo.”

Tomáz colocou outro palito entre os dentes.

“Quero que deixe esse lugar e venha ver o oceano comigo.”

Tomáz também se encostou à cadeira e apoiou um dos tornozelos sobre o joelho enquanto lançava um olhar porta afora para observar os últimos instantes de luz do dia. “O filho do Antônio tá aí.”

Um sorriso torto, quase sem ser sorriso, cortou os lábios do outro homem. “Aqui?”

O dono da casa indicou a direção do quarto com a cabeça, e os olhos fundos do viajante se fincaram na escuridão do corredor que levava à alcova. Segurou o cigarro nos dedos antes de escarrar no chão. “O que ele faz aqui?”

O outro homem se levantou para acender as lamparinas. Usou uma vareta para roubar uma chama da fornalha e puxou a tampa de ferro para sufocar o fogo que restara. “Depois que você abateu o Antônio e foi embora –”, o outro fez algum som de humor com a sua escolha de palavras, “– ele que ficou no lugar. Mas ele é mole, preguiçoso, indolente, vil. Vale menos que valia o pai. Só tem a boca e o orgulho, e Amos o colocou pra fora, sabendo que viria pra cá.” Foi a vez dele de cuspir. “Agora já me deve oito maços de dinheiro e Amos não paga, mas cobra que ele passe bem.”

O peregrino bebeu o que restava do leite em seu copo e se levantou para enchê-lo de novo. Talvez houvesse finalmente percebido que estava em casa. Encheu o copo até a borda e em dois goles sorveu a metade dele. Tragou outra vez. “Faz sexo com ele?”

Tomáz pousou duas lâmpadas acesas no centro da mesa, encolhendo os ombros. “Tenho minhas necessidades”, disse.

“Ele te satisfaz?”

Balançou a cabeça. “Ele não sabe usar o pau que tem”, respondeu, circundando a mesa para alcançar a espingarda encostada à parede atrás da porta, onde a deixara ao entrar na casa, e recarregá-la. “Eu me viro lembrando como a gente quebrou a outra cadeira.”

O homem olhou em volta, e um sorriso sujo separou seus lábios ao dar falta da terceira cadeira ao redor da mesa. Tragou o cigarro uma última vez e o deixou cair no chão para pisoteá-lo. “O que a gente faz com o Antônio?”, ouviu. Terminou outra vez o copo, mais lentamente, e o deixou ao lado da garrafa. Caminhou a passos lentos, afastando-se aos poucos com as próprias ideias.

Tomáz tornou a sentar-se à mesa enquanto o acompanhava com os olhos. A luz fraca e bruxuleante das lamparinas criavam sombras tortuosas no rosto dele. Ele coçava a barba com vagar, até que parou de passear e ouviu os passos que vinham do corredor. Antônio apareceu à porta da cozinha com o olhar fixo na figura do desconhecido. “Quem é esse?”

O peregrino o fitava com expectativa.

“Esse é Tobias, Antônio.”

O garoto o mediu por alguns instantes, até que seu rosto começou a empalidecer. Tomáz ergueu-se e aproximou-se dos dois. Seus dentes destruíam calmamente o palito entre eles.

Tobias sorriu e estendeu a mão direita. “Eu e o seu pai éramos bons amigos”, disse, mas Antônio não esboçou outra reação diferente de levar o olhar da mão suja que lhe era oferecida até o rosto do homem, com a boca retorcida como se lhe entregassem a corda para a própria forca. Tobias recolheu a mão. “Tem passado bem?”

Ele pareceu finalmente cair em si. Sobressaltou-se e começou a correr em direção à porta que dava para o alpendre, mas, antes do terceiro passo, foi ao chão, derrubando uma das cadeiras, em urros enquanto se encolhia para agarrar o joelho. Sangue escorria entre seus dedos e se acumulava no chão, seguindo os veios da madeira do assoalho.

Sem dar um passo, o viajante levou a mira do revólver à cabeça do adolescente, ordenando silêncio numa ameaça muda. Antônio engoliu a voz, mas não o choramingo e os gemidos que vinham das profundezas da sua dor, e arrastou-se até encontrar o armário sob a pia. Sem qualquer chance de escapar.

Tobias nunca fora covarde.

Era prático.

O que a gente faz com o Antônio, Tomáz?

Tobias colocou em sua mão o velho revólver, murmurando mata-o. “Como eu fiz.”

O olhar de Tomáz encontrou o corpo encolhido e trêmulo de Antônio no chão, apertado contra o armário como se aquilo lhe oferecesse alguma segurança. As mãos, antes moles e preguiçosas, apertavam com uma força hercúlea o joelho destroçado, e suas bochechas estavam vermelhas, molhadas de suor e de lágrimas. Ele gemia, e o coração de Tomáz palpitava com a tentação que lhe era oferecida, e ele não demorou a ceder. Cuspiu o palito e se aproximou.

Sorria ao agachar-se frente ao jovem choroso. Sorria com desdém. Ergueu a arma até a altura de seus olhos, exibindo-a como faria com um prêmio. Um prêmio velho, desgastado, mas merecido. Lambeu os lábios e aproximou-se mais, até sentir a respiração entrecortada dele no próprio rosto.

“Não quis as batatas...”, começou, e abriu com a ponta do cano a boca trêmula dele sem achar qualquer resistência. Os olhos dele estavam grudados em si, cheios do mais puro e obediente terror. O revólver deslizou para dentro daquela boca até tocar o palato. “...Então eis aqui a tua porra”, e puxou o gatilho. O lampejo de surpresa que começou a atravessar a expressão de Antônio ao término de suas palavras, o início de um grito por clemência, nada disso durou. A cabeça ricocheteou com a força com que a bala abriu um buraco através do crânio.

Olhos sem vida, pupilas dilatadas, fumaça escapando pela boca. O cheiro de sangue e pólvora.

Havia anos que não encontrava prazer naquele cheiro sujo. Cheiro de morte, de poder. Cheiro de homem.

Tobias já se apoderara da bolsa de dinheiro, balançando-a para ouvir o tinir das moedas ser abafado pelas notas. “Seu pagamento”, ele disse. O sangue que sujava o pano era tão velho quanto o sangue que Tomáz não lavara do rosto. O peregrino colocou o chapéu sobre a cabeça, agarrou o poncho e uma das lamparinas e caminhou casa afora, anunciando que ele mesmo encilharia Mariana.

Tomáz limpou o revólver na manga da camisa de Antônio e se levantou. Desperdiçou um último olhar ao adolescente morto e então se retirou para organizar suas provisões. Precisavam partir o quanto antes.