radostia: (le vestido na grama)
Anna H. ([personal profile] radostia) wrote2014-03-19 12:52 am

Quatro

1. Anthony

Era uma música a quatro mãos. Christopher era um troglodita que batia nas teclas como se pudesse extorquir delas o que queria, da mesma forma que fazia com todos. Batia nelas como provavelmente faria com a própria esposa em alguns anos. Anthony só esperava que não fosse uma de suas irmãs.

Ao lado dele, estava Christian. O filho do professor, que ultimamente aplicava mais aulas que o próprio pai e tinha esperanças infinitas de que conseguiria salvar alunos como Christopher e o próprio Anthony. Ao menos o último, ele mesmo pensava, no que lhe faltava em talento, se excedia no amor ao instrumento e era cuidadoso com o marfim do teclado, buscava acompanhar a partitura e manter seu andamento com o dos estalidos que Chris marcava com o céu da boca.

Admitia que uma parte, mas apenas uma ínfima parte daquele esforço dava-se no intento de atrair dele a atenção. Queria progredir para arrancar dele sorrisos de satisfação e orgulho, para que lhe segredasse que era seu melhor aluno e lhe apertasse a mão, desse-lhe palmadas nas costas. Talvez se alegrasse tanto que o abraçaria.

Sentia seu coração mais acelerado em apenas imaginar.

Baixou a cabeça e guardou no bolso a mão livre. Os dedos que seguravam a própria partitura tremiam um pouco, então os fez parar, e, para isso, apertou o punho escondido na calça. Com os olhos presos no papel, afastou-se, com passos lentos, da janela e circundou o quarto até encontrar-se às costas deles. Tentava, como tentava, ler as notas desenhadas nas pautas e acompanhar apenas a parte executada pelo professor, mas seu primo o atrapalhava. Espancava as teclas e pisava no primeiro pedal como se aquilo o fizesse soar melhor, mas tudo o que alcançava era dor auditiva e subjugar a música produzida sob os dedos de Chris.

Queria poder ouvi-lo tocar sozinho. Queria poder assistir-lhe tocar, nada mais. Queria assistir-lhe sentar ao piano e dedicar a si uma de suas próprias composições, observar a figura elegante, mas ainda humilde, dele curvar-se ligeiramente sobre o piano e sentir seu coração se apertar com a beleza com que as mãos dele dançavam sobre o teclado.

E queria ser melhor, e mais velho, para que fizesse crescer naquele homem o mesmo sentimento que cativava por ele.
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2. Matthew

Matthew mordia o lábio inferior, cobria com uma das mãos a própria boca e cravava as unhas da outra na pele do garoto sobre si, tudo para manter-se o mais silencioso possível. Mas Milo era cruel e investia contra seu corpo com mais voracidade, mordia seu ombro e descobria seus lábios; desafiava-o a se conter e sorria ao ouvi-lo falhar.

O chão de pedra ainda machucava suas costas, apesar de estar deitado sobre as roupas de ambos, exceto pela calça do italiano, que ele ainda usava. Não reclamou, contudo, até gostava. Sentiria aquela dor por uma semana e não faria nada além de sorrir ao pensar em como se machucara. Ou talvez procurasse outra vez pelo causador dela.

Estancaram ao ouvirem a porta bater e passos descerem as escadas, fazendo a madeira ranger. As respirações prenderam-se, as quatro mãos encontraram-se sobre os lábios do mais novo e os olhares fixaram-se um no outro. Seus rostos, antes avermelhados, estavam lívidos. Seus corações, antes acelerados, disparavam como nunca antes. Seis fileiras de prateleiras e uma parede de caixas separavam os dois da mulher, que caminhava e cantarolava sem pressa, e ambos rezavam para que ela não estivesse em busca das sacas de farinha empilhadas contra a parede.

Milo apertou mais as mãos contra sua boca e voltou a respirar. Lenta e cuidadosamente. Seus olhos desviaram-se pela claridade que atravessava o espaço entre as caixas análogo a uma porta e depois retornaram aos do McCollough, cheios de uma malícia que lhe era familiar, intensificando no rosto dele a palidez. Conheciam-se bem demais.

A mão destra do mais velho esgueirou-se entre os corpos e segurou o sexo do outro com firmeza. Sorriu. Estava certo, afinal. A situação o excitava tanto quanto o apavorava, e deve ter-lhe custado o mundo conter o suspiro que o fez fechar os olhos e separar mais as pernas quando começou a masturbá-lo. Sua pulsação era tão alta em seus ouvidos que quase o impedia de ater-se ao som dos passos da mulher.

Nunca imaginara que veria Matthew gozar em silêncio.
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3. Allan

Talvez nevasse mais tarde, e aquilo o fez resmungar. Não tivera tempo ou dinheiro para comprar um cobertor decente, e não se sentia à vontade para pedir qualquer coisa a Finnian. Já era mau o suficiente não possuir meios de agradecê-lo, não era necessário que aumentasse a própria dívida. Com isso, restava-lhe apenas Rhys. Não se sentia confortável pedindo qualquer coisa a ele também, e não o faria se a possibilidade de acordar com os pés congelados não o realmente preocupasse.

Mas não via Rhys desde a última sexta-feira, depois do expediente. Já era terça. Talvez ele houvesse sido demitido, não era mesmo um garçom muito bom. Aileen também estava desocupada, sentada no banco enquanto beliscava colheradas de um doce feito das abóboras que ele mesmo passara a manhã a preparar, queimando as pontas os dedos na polpa quente. Achou que poderia perguntar. Ela esboçou uma reação surpresa e o puxou para sentar-se ao seu lado. "Não viste?"

Não vira o quê? Finnian fizera algum escândalo?

"Ele foi pendurado, querido, no domingo."

Allan sentiu o sangue fugir do próprio rosto. Talvez houvesse fugido de seu corpo inteiro.

"Eu vi," ela disse, selecionando com a colher uma porção mais bem coberta de canela, "É horrível, realmente." Ela deu de ombros e levou o doce à boca. "Mas é necessário. Não se pode viver com estas coisas fingindo ser pessoas decentes como nós dois."

Allan tentou sorrir e concordar, mas não conseguia. Sentia-se oco e destacado da própria existência. Nauseado. Despediu-se dela com um toque no ombro e não respirou até estar de joelhos no banheiro, vomitando até achar que as próprias entranhas lhe sairiam pela boca. Tremia. Queria chorar. Talvez já estivesse chorando.

Nunca acontecera com alguém que conhecesse. Ouvira conhecidos contarem, como fizera Aileen, mas nunca assim. Sobre alguém com quem convivesse. De quem gostasse. Com quem houvesse estado. Estivera com Rhys naquela sexta-feira.

Podia ter acontecido consigo. Não sabia como ou quando Rhys havia sido pego, mas ainda assim. Sentia-se vulnerável. Exposto.

Vomitou outra vez.
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4. Damián

Era fim de tarde no estúdio. Sr. Williams os deixara sozinhos e incumbira Jesse de ensiná-lo a preparar o Daguerrótipo, mas o inglês, tendo consentido, apenas sentara-se sobre o baú de couro e acendera um cigarro. Henry não permitia que fumassem ali, mas Jesse raramente o obedecia quando longe de suas vistas. Aquilo deixava Damián apreensivo. E se o tutor resolvesse dar meia volta e deixar instruções mais específicas, e se houvesse esquecido qualquer coisa? Estava sob a guarda do louro e provavelmente seria despedido junto dele.

Suspirou.

Talvez houvesse se enganado ao pensar que talvez Deus começaria enfim a compensar-lhe. Nesse caso, não haveria problema em sentar-se ao lado do mais velho e roubar um trago.

Jesse tinha o mesmo cheiro que sr. Williams. Químico. Provavelmente acabaria do mesmo jeito depois que passasse a realmente trabalhar com eles. Mas não se incomodava, acostumara-se na verdade. Associara-o mais ao louro que ao fotógrafo, talvez porque geralmente estava mais próximo do primeiro que do segundo, ou porque sentia que suas percepções aguçavam-se durante aquela proximidade.

"Sabe no que eu 'tava pensando?" ele disse. Sua voz era grave, cavernosa, mas ainda agradável de ouvir.

"O quê?"

Ele não respondeu. Virou-se para encontrar o olhar do espanhol fixo em si e retirou dos lábios dele o cigarro. Analisou-o por um tempo, medindo sua aparência e sua postura, e então aproximou-se mais. Damián quis recuar, ser prudente, mas não o fez. Sentia o que estava para acontecer, e tinha aquele momento como tema central de seus devaneios havia semanas. Era uma das poucas coisas que o faziam ignorar a razão de ter ido parar ali.

Jesse inspirou e umedeceu os lábios. Olhava diretamente nos olhos escuros do protegido. "Que, dos de fora que eu já conheci," ele começou, e baixou seu foco para os lábios entreabertos. Damián continuava estático. Sentia a respiração pesar um pouco e o aposento aquecer-se. Esperava não estar corando. "Talvez os espanhoca sejam os de mais charme", disse, enfim, e roubou para si a boca de Damián.