Anna H.
01 May 2013 @ 10:42 pm
extra-ordinário  

Fazia tanto tempo que ninguém vinha à minha casa que eu já nem lembrava quanto tempo. Fazia tempo também que eu não ia à casa de alguém ou ao menos saía com outra pessoa. Sou eu, o gato, a cadela e o canário. Adônis, Mirna e Freddie. Provavelmente gasto mais com a comida dos três que com a minha. Adônis é um fresco que só come daquelas rações caras com gosto de salmão e ervas finas que não se vendem nas mesmas sacas de não sei quantos quilos que compro para Mirna. É um fresco que quer comida com molhinho e depois quer que lhe limpem a cara enjoada. Já a cadela é uma vira-lata misturada de não sei o quê que não tem mimimi nenhum, come a própria ração, se o Adônis bobear, come a dele, e, se tiver como alcançar a gaiola do Freddie, surrupia as rodelas de banana e os pedaços de alface que prendo na grade; depois disso ainda quer comer o rolo de papel higiênico e mascar o controle remoto da TV e o pé da cama. Não dá para comer no sofá sem trancá-la antes em algum lugar.

sapatilhas )

 
+
 
Anna H.
19 March 2013 @ 02:25 pm
Epílogo iv  

Ele tinha as mãos repousadas na cama, ao lado do corpo, sobre a manta de retalhos que o cobria até a cintura. Em ambos os braços, bandagens cobriam o local de inserção de vários tubos vermelhos e incolores, ligados a uma única máquina branca e robusta, encostada à parede do quarto. O pijama hospitalar estava entreaberto e deixava seu peito à mostra, muito mais magro do que eu recordava. Dolorosamente magro. A cor de sua pele se aproximava da fábrica verde esbranquiçada que o cobria. Da base de seu pescoço, acoplado a uma placa azulada, saía um tubo incolor que se conectava a um cilindro no qual um diafragma se expandia e contraía. Seus lábios estavam ressecados; suas bochechas, profundas, e seus olhos também – naquela face lívida, eram a única parte escura. E não se abriram em momento algum. Seu cabelo era tão escuro quanto o meu e crescera desordenadamente. Em algumas partes, simplesmente não crescera.

a caixa de pandora )

 
+